sábado, 28 de outubro de 2017

conhecendo melhor como foi a reforma protestante


Por Jânio Santos de Oliveira





 Pastor e professor da Igreja evangélica Assembléia de Deus em Santa Cruz da Serra
Pastor Presidente: Eliseu Cadena


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Meus amados e queridos irmãos em Cristo Jesus, a Paz do Senhor!



Esta é a minha singela homenagem aos internautas neste momento em que comemoramos os 500 anos da reforma protestante.


Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a instrução na justiça, para que o homem de Deus seja apto e plenamente preparado para toda boa obra. 2 Timóteo 3:16-17



Aquele foi sem dúvida um momento singular do mundo religioso, haja vista, o fato de que as indulgências e o legalismo afloravam a prática religiosa se maneira legalista, visando substituir o sacrifício de Cristo na crus do calvário.

Este artigo descreve e analisa a Reforma Protestante do século XVI dentro do complexo contexto religioso, social, político e intelectual que vivia a Europa de então. O texto considera as causas desse importante movimento, suas características e personagens principais, bem como seus efeitos na igreja e na sociedade. 





Os 5 pilares da Reforma Protestante

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A Reforma Protestante foi um movimento que procurou voltar às bases do ensinamento da Bíblia, tirando as tradições erradas que tinham surgido ao longo dos séculos. O movimento protestante se baseia em 5 princípios fundamentais os 5 "somentes":

1. Sola Scriptura - Somente as Escrituras

Todo ensinamento deve ser fundamentado na Bíblia, que é a palavra de Deus. Ela é a única autoridade divina para a fé. Todo ensino e toda tradição devem ser analisadas à luz da Bíblia. Se não está bem fundamentado na Bíblia, não vale como doutrina!

2. Sola Fide - Somente a Fé


Só existe uma forma de alcançar a salvação: pela fé. Por mais que façamos, nossas obras não conseguem nos salvar do pecado e suas consequências. Somente quando cremos em Jesus como nosso salvador é que recebemos a salvação. Uma vida de boas obras é consequência da salvação, não o contrário.

3. Sola Gratia - Somente a Graça

Deus não nos salva porque merecemos. Ninguém merece a vida eterna, porque todos pecamos. Não há nada que podemos fazer para merecer a salvação. Mas Deus nos oferece a salvação de graça, porque ele nos ama!

4. Solus Christus - Somente Cristo


Jesus é o único caminho para a salvação e o único mediador entre nós e Deus. Ele pagou o preço por todos os nossos pecados! Por isso, quando o reconhecemos como nosso salvador, nossos pecados são todos perdoados. A única coisa que precisamos fazer é arrepender-nos. Em Jesus temos acesso direto a Deus, sem mais intermediários.

5. Soli Deo Gloria - Somente a Deus a Glória


Deus é o único que merece toda a glória e toda a adoração. Ele é o único Deus que existe e ele está presente em todo lado, pronto para nos ouvir quando nos viramos para ele. Por isso, não devemos adorar nem orar para deuses falsos, imagens nem santos. Essa glória pertence somente a Deus.




I. Resumo da reforma

Não me envergonho do evangelho, porque é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê: primeiro do judeu, depois do grego. Porque no evangelho é revelada a justiça de Deus, uma justiça que do princípio ao fim é pela fé, como está escrito: "O justo viverá pela fé". Romanos 1:16-17



A REFORMA PROTESTANTE DO SÉCULO 16



·        Reforma Protestante – um fenômeno complexo:
- Fatores políticos, sociais, intelectuais e religiosos
- A história de Alberto de Mogúncia
·        Reforma Protestante – um fenômeno heterogêneo:
- Quatro manifestações: luteranos, calvinistas, anabatistas, anglicanos

1 . ANTECEDENTES

Políticos e sociais

·        Declínio do feudalismo, crescimento das cidades (burguesia), primórdios do capitalismo
·        Surgimento dos estados nacionais (França, Inglaterra); Sacro Império Germânico
·        Nacionalismo; conflitos crescentes com Roma e os papas
·        Guerra dos Cem Anos (1337-1453): Inglaterra x França (Joana D’Arc)
·        Epidemias (Peste Negra: 1384, etc.) e outras calamidades naturais
·        Essas calamidades produzem morte, devastação e desordem (ruptura da vida pessoal e social), gerando insegurança, ansiedade, pessimismo. A “dança da morte”
·        Renascimento e humanismo: ênfase na liberdade individual, espírito de contestação
·        Invenção da imprensa (Gutenberg, c.1450)

 Religiosos

·        Crise no catolicismo romano e no papado: o Cativeiro Babilônico da Igreja (1309-1377) e o Grande Cisma (1377-1417)
·        Conciliarismo: Concílio de Constança (1414-1417) e outros; reafirmação da supremacia papal
·        Pré-reformadores: João Wycliffe (†1388) – Oxford (Inglaterra); João Hus (†1417) – Praga (Checoslováquia) e os Irmãos Boêmios/Morávios
·        Humanistas bíblicos: Erasmo de Roterdã (†1536) e Novo Testamento em grego/latim; tradução da Bíblia nas línguas européias
·        Retorno às Escrituras: contraste entre o Novo Testamento e as crenças/práticas católicas
·        Movimentos devocionais: misticismo, Devoção Moderna e os Irmãos da Vida Comum (A Imitação de Cristo: 1418)
·        Religiosidade meritória: missas pelos mortos, purgatório, devoção a Maria e aos santos
·        Matemática da salvação: débitos (pecados) e créditos (boas obras); medo da morte, insegurança. Catecismo de Kolde (1470): três motivos de ansiedade: eu vou morrer, não sei quando, não sei para onde irei
·        Papas do renascimento: Alexandre VI (1492-1503) – Rodrigo Borja; Júlio II (1503-1513); Leão X (1513-1521): “Agora que Deus nos deu o papado, vamos desfrutá-lo”
·        Ressentimento dos governantes e do povo; “Reforma na cabeça e nos membros”

2 . PRINCIPAIS MOVIMENTOS

 Luteranos
·        Martinho Lutero (1483-1546) e eleição do arcebispo Alberto de Mogúncia
·        Experiência religiosa: Wittenberg, justificação pela fé, Noventa e Cinco Teses (1517)
·        1520 – três escritos decisivos: À Nobreza Cristã da Nação Alemã, O Cativeiro Babilônico da Igreja, A Liberdade do Cristão
·        1521 – excomunhão, Dieta de Worms (Castelo Forte), tradução da Bíblia
·        1529 – Dieta de Spira; surge o termo “protestantes”
·        1530 – Confissão de Augsburgo; Filipe Melanchton (1497-1560)
·        Difusão na Alemanha e Escandinávia (Dinamarca, Suécia, Noruega, Islândia)

 Reformados
·        Ulrico Zuínglio (1484-1531): influências humanistas; Novo Testamento de Erasmo
·        Reforma em Zurique (1523-25): “Segunda Reforma”, “Reforma Suíça”, “reformados” Sessenta e Sete Artigos (1523), Comentário sobre a Verdadeira e a Falsa Religião (1525)
·        João Calvino (1509-1564): estudos, influências, conversão (1533), estadia em Genebra
·        As Institutas (1536), comentários, preleções, tratados, sermões, cartas
·        Difusão na França, Alemanha, Holanda (Sínodo de Dort, 1618), Leste Europeu, Inglaterra e Escócia (João Knox, †1572)

 Anabatistas
·        Zurique, 1524: Conrad Grebel, Felix Mantz; conflito com autoridades e Zuínglio
·        Batismo de adultos, imersão – anabatistas (radicais, fanáticos, entusiastas, etc.)
·        1527 – Confissão de Fé de Schleitheim (retorno à igreja do Novo Testamento, batismo, separação do Estado e do mundo, pacifismo)
·        Repressão, perseguições; exceção: episódio de Münster (1532-1535)
·        Menno Simons (1496-1561) – Holanda: menonitas

 Anglicanos
·        Henrique VIII (1491-1547), Eduardo VI (1547-1553), Maria I (1553-1558) – exilados e mártires (O Livro dos Mártires, de Foxe)
·        Arcebispo Thomas Cranmer (1489-1556): Livro de Oração Comum (1549), Quarenta e Dois Artigos (1553)
·        Elizabete I (1558-1603): Acordo Elizabetano (elementos católicos e protestantes)
·        Puritanismo: congregacionais, presbiterianos, batistas; migração para a América (EUA)
·        Assembléia de Westminster (1643-1649): Confissão de Fé e Catecismos

3 . CARACTERÍSTICAS

·        Diversidade religiosa: fim do corpus christianum (Contrarreforma, Concílio de Trento: 1545-1563, guerras)
·        União e depois separação entre a Igreja e o Estado
·        Movimento restaurador (mais que reformador)
·        Princípios: Sola Scriptura, Solus Christus, Sola Gratia, Sola Fides, Soli Deo Gloria
·        Outros: livre exame das Escrituras, sacerdócio de todos os crentes
·        Divergências teológicas: especialmente em torno da Santa Ceia (Colóquio de Marburg)
·        Germe de conquistas futuras como democracia, educação geral, progresso científico, econômico e social

4 . PRESSUPOSTOS

 A centralidade da Escritura:
- Sola Scriptura:            - A redescoberta da Bíblia por Lutero e pelos humanistas
                               - A erudição bíblica de Calvino
- A tradução das Escrituras
- O livre exame
- Tota Scriptura: o princípio regulador
- O Espírito e a Palavra:
   - O Espírito é o autor da Palavra e fala somente pela Palavra
   - O testemunho interno do Espírito Santo.

 A justificação pela fé:

     - Sola gratia, solo Christo, sola fides
     - Justificação = declarar justo; conceito jurídico ou forense
     - Não pelas obras (lei)
     - Efeito libertador
     - Iniciativa divina e resposta humana.

 O sacerdócio de todos os crentes:

     - A igreja como a comunhão dos santos (não só a mãe e mestra)
     - Fim da distinção clero-leigos
     - Negação do conceito de fé implícita

5 . CONSEQUÊNCIAS

 Teológicas:

     - Um novo entendimento da igreja:
        - Igreja invisível (todos os eleitos) e visível (os que professam a fé em Cristo e
           seus filhos)
        - As marcas da igreja: fiel pregação da Palavra, correta ministração dos
           sacramentos.
     - Um novo entendimento da salvação:
        - Dádiva de Deus, do início ao fim
        - Não o alvo, mas o ponto de partida.
     - Um novo entendimento da vida cristã:
        - Abrangente, a santificação do comum
        - Consagração a Deus, e não busca de méritos.

 Políticas:

     - O princípio da diversidade:
        - Fim do conceito de cristandade; pluralismo
        - Diferenças em torno de um núcleo comum.
     - O princípio da tolerância:
        - No início, lutas; depois, busca de igualdade
        - Denominacionalismo.
     - O princípio da democracia participativa:
        - Evolução no relacionamento igreja e estado.

 Sociais:

     - Novo conceito de vocação – todos são vocacionados.
     - Novo conceito de trabalho – nova ética do trabalho; prosperidade.
     - Novo conceito de sociedade – visão holística; puritanos – “santos no

        mundo”

II.  Períodos antecedentes à reforma



Pois vocês são salvos pela graça, por meio da fé, e isto não vem de vocês, é dom de Deus; não por obras, para que ninguém se glorie. Efésios 2:8-9

 final da Idade Média 1.1 Os Estados Nacionais Nos séculos que antecederam a Reforma Protestante, a Igreja não vivia em um vácuo, mas sim em um contexto político e social mais amplo com o qual tinha múltiplas interações. No final da Idade Média, houve o surgimento dos chamados “estados nacionais”, as modernas nações européias, o que representou uma grande ameaça às pretensões do papado. Na Alemanha (Sacro Império Romano), Rudolf von Hapsburg foi eleito imperador em 1273. Em 1356, um documento conhecido como Bula de Ouro determinou que cada novo imperador seria escolhido por sete eleitores (quatro nobres e três arcebispos). Havia descentralização política, isto é, o poder dos príncipes limitava a autoridade do imperador, e forte tensão entre a igreja e o estado. Na França, houve o fortalecimento da monarquia com Filipe IV, o Belo (1285-1314). Esse rei enfrentou com êxito o poder da Igreja e dos papas e preparou a França para tornar-se o primeiro estado nacional moderno. Na Inglaterra, o parlamento reuniu-se pela primeira vez em 1295. Esse país teve um grande rei na pessoa de Eduardo I (†1307), que subjugou os nobres e enfrentou com êxito o papa na questão de impostos. 1.2 O Declínio do Papado Este período começa com o pontificado de Bonifácio VIII (1294-1303), um papa arrogante e ambicioso que entrou em confronto direto com o rei Filipe IV acerca de impostos e da autoridade papal. Bonifácio publicou três famosas bulas: Clericis Laicos, na qual reclama que os leigos sempre foram hostis ao clero; Ausculta Fili (“Escuta, filho”), dirigida ao rei francês, e Unam Sanctam (1302), denominada “o canto do cisne do papado medieval”. Irritado com as ações papais, Filipe enviou suas tropas, o papa foi preso e faleceu um mês após ser libertado. Seguiu-se um período de crescente desmoralização do papado. Clemente V (1305- 1314), um papa francês, transferiu a Cúria, ou seja, a administração da Igreja, para Avinhão, ao sul da França, no que ficou conhecido como o “Cativeiro Babilônico da Igreja” (1309-1377). Em toda parte, cresceram as críticas às extravagâncias e ao luxo da corte papal. João XXII (1316-1334) mostrou-se eficiente na cobrança de taxas e dízimos para cobrir essas despesas. Finalmente, ocorreu o chamado “Grande Cisma”, em que houve dois e posteriormente três papas rivais em Roma, Avinhão e Pisa (1378-1417). Diante dessa situação constrangedora, surgiu em toda a Europa um clamor por “reformas na cabeça e nos membros”. 1.3 O Movimento Conciliar Durante o “Grande Cisma”, cada papa considerou-se o único legítimo e excomungou o rival. Assim, houve a necessidade de um concílio para resolver a crise. O Concílio de Pisa (1409) elegeu um novo papa, mas os outros dois recusaram-se a serem depostos, resultando em três papas ao mesmo tempo. João XXIII, o segundo papa pisano, convocou o Concílio de Constança (1414-1417), que depôs os três papas, elegeu Martinho V como único papa, decretou a supremacia dos concílios sobre o papa e condenou os pré-reformadores João Wycliff, João Hus e Jerônimo de Praga. O Concílio de Basiléia (1431-1449) reafirmou a superioridade dos concílios. Finalmente, o Concílio de Ferrara-Florença (1438-1445) tentou a união com a Igreja Ortodoxa (frustrada pela conquista de Constantinopla pelos turcos em 1453) e 3 reafirmou a supremacia papal. Essa tentativa fracassada de tornar a Igreja mais democrática e governá-la através de concílios ficou conhecida como conciliarismo. 1.4 Movimentos dissidentes Outro aspecto desse período de efervescência foi o surgimento de alguns movimentos dissidentes no sul da França que despertaram forte oposição da Igreja Católica. Um deles foi o dos cátaros (em grego = “puros”) ou albigenses (da cidade de Albi), surgidos no século 11. Caracterizavam-se por um sincretismo cristão, gnóstico e maniqueísta, com um dualismo radical (espiritual x material) e extremo ascetismo. Foram condenados pelo 4° Concílio Lateranense em 1215 e mais tarde aniquilados por uma cruzada. Para combater esses e outros hereges, a Inquisição foi oficializada em 1233. Outro movimento foi liderado por Pedro Valdo ou Valdes († c.1205), de Lião, cujos seguidores ficaram conhecidos como “homens pobres de Lião”. Tinham um estilo de vida comunitário, ensinavam as Escrituras no vernáculo (enfatizando o Sermão do Monte), incentivavam a pregação de leigos e de mulheres, negavam o purgatório. Condenados pelo Concílio de Verona em 1184, foram muito perseguidos, refugiando-se em vales remotos e quase inacessíveis dos alpes italianos. Mais tarde, abraçaram a Reforma Protestante, sendo assim uma das poucas Igrejas protestantes anteriores à Reforma do Século 16. 1.5 


III. O surgimento da reforma protestante.

Pois há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens: o homem Cristo Jesus, o qual se entregou a si mesmo como resgate por todos. Esse foi o testemunho dado em seu próprio tempo. 1 Timóteo 2:5-6

Primeiros Movimentos de Reforma Nos séculos 14 e 15, surgiram alguns movimentos esporádicos de protesto contra certos ensinos e práticas da Igreja Medieval. Um deles foi encabeçado por João Wycliff (1325?-1384), um sacerdote e professor da Universidade de Oxford, na Inglaterra. Wycliff atacou as irregularidades do clero, as superstições (relíquias, peregrinações, veneração dos santos), bem como a transubstanciação, o purgatório, as indulgências, o celibato clerical e as pretensões papais. Seus seguidores, conhecidos como os lolardos, tinham a Bíblia como norma de fé que todos devem ler e interpretar. João Hus (c.1372-1415), um sacerdote e professor da Universidade de Praga, na Boêmia, foi influenciado pelos escritos de Wycliff. Definia a igreja por uma vida 4 semelhante à de Cristo, e não pelos sacramentos. Dizia que todos os eleitos são membros da igreja e que o seu cabeça é Cristo, não o papa. Insistia na autoridade suprema das Escrituras. Hus foi condenado à fogueira pelo Concílio de Constança. Seus seguidores ficaram conhecidos como Irmãos Boêmios (1457) e foram muito perseguidos. Foram os precursores dos Irmãos Morávios, que veremos posteriormente, outro grupo protestante cujas raízes são anteriores à Reforma do século 16. Outro indivíduo incluído entre os pré-reformadores é Jerônimo Savonarola (1452-1498), um frade dominicano de Florença, na Itália, que pregou contra a imoralidade na sociedade e na Igreja, inclusive no papado. Governou a cidade por algum tempo, mas finalmente foi excomungado e enforcado como herege. 1.6 Movimentos Devocionais Além dos movimentos que romperam com a Igreja, houve outros que permaneceram na mesma por se concentrarem na vida devocional, sem críticas aos dogmas católicos. Um deles foi o misticismo, bastante forte na Inglaterra, Holanda e especialmente na Alemanha (Reno). Os principais místicos dessa época foram Meister Eckhart (†1327); Tauler (†1361) e os “Amigos de Deus”, Henrique Suso (†1366) e mais tarde o célebre teólogo e líder eclesiástico Nicolau de Cusa (1401- 1464). O misticismo dava ênfase à união com Deus, ao amor, à humildade e à caridade, e produziu uma belíssima literatura devocional. Outro importante movimento foi a Devoção Moderna, que se manteve forte durante todo o século 15. Suas ênfases recaíam sobre a espiritualidade, a leitura da Bíblia, a meditação e a oração. Também valorizava a educação, criando ótimas escolas. Foi um movimento leigo, para ambos os sexos, e também exerceu grande influência sobre os reformadores protestantes. Os participantes eram conhecidos como Irmãos da Vida Comum. A obra mais importante e popular produzida por esse movimento foi o belíssimo livreto devocional A Imitação de Cristo (1418), escrito por Thomas à Kempis. 1.7 Os humanistas bíblicos O interesse pelas obras da Antiguidade levou ao estudo da Bíblia nas línguas originais pelos chamados humanistas bíblicos. Os principais deles foram o italiano 5 Lorenzo Valla (†1457), estudioso do Novo Testamento; o inglês John Colet (†1519), estudioso das epístolas paulinas; o alemão Johannes Reuchlin (†1522), notável hebraísta; o francês Lefèvre D’Étaples (†1536), tradutor do Novo Testamento; e o holandês Erasmo de Roterdã (1466?-1536), “o príncipe dos humanistas”, que publicou uma edição crítica do Novo Testamento grego com uma tradução latina, talvez a obra mais importante publicada no século 16, que serviu de base para as traduções de Lutero, Tyndale e Lefèvre e muito influenciou os reformadores protestantes. Esse retorno às Escrituras muito contribuiu para a Reforma do Século 16. 1.8 Situação Geral O final da Idade Média foi marcado por muitas convulsões políticas, sociais e religiosas. Entre as políticas destacou-se a Guerra dos Cem Anos (1337-1453), entre a Inglaterra e a França, na qual tornou-se famosa a heroína Joana D’Arc. Houve também muitas revoltas camponesas, o declínio do feudalismo, a expansão das cidades e o surgimento do capitalismo. No aspecto social, havia fomes periódicas e o terrível flagelo da peste bubônica ou peste negra (1348). As guerras, epidemias e outros males produziam morte, devastação e desordem, ou seja, a ruptura da vida social e pessoal. O sentimento dominante era de insegurança, ansiedade, melancolia e pessimismo. Isso era ilustrado pela “dança da morte”, gravuras que se viam em toda parte com um esqueleto dançante. Na área religiosa, houve a erosão do ideal da cristandade ou “corpus christianum”, a sociedade coesa sob a liderança da igreja e dos papas. A religiosidade era meritória, com missas pelos mortos, crença no purgatório e invocação dos santos e Maria. Ao mesmo tempo, havia grande ressentimento contra a igreja por causa dos abusos praticados e do desvio dos seus propósitos. Isso é ilustrado pela situação do papado no final do século 15 e início do século 16. Os chamados papas do renascimento foram mais estadistas e patronos das artes e da cultura do que pastores do seu rebanho. A instituição papal continuou em declínio, com muitas lutas políticas, simonia, nepotismo, falta de liderança espiritual, aumento de gastos e novos impostos eclesiásticos. Como papa Alexandre VI (1492-1503), o espanhol Rodrigo Borja foi um generoso promotor das artes e da carreira dos seus filhos César e 6 Lucrécia; Júlio II (1503-1513) foi um papa guerreiro, comandando pessoalmente o seu exército; Leão X (1513-1521), o papa contemporâneo de Lutero, teria dito quando foi eleito: “Agora que Deus nos deu o papado, vamos desfrutá-lo”. 2. 



IV. A Reforma Protestante 

Não a nós, Senhor, nenhuma glória para nós, mas sim ao teu nome, por teu amor e por tua fidelidade! Salmos 115:1


 1ª Parte 2.1 O contexto social e religioso Vimos, no final da seção anterior, alguns elementos que caracterizavam a sociedade européia às vésperas da Reforma. 



As 95 Teses de Lutero As 95 Teses afixadas por Martinho Lutero na Abadia de Westminster a 31 de outubro de 1517, fundamentalmente "Contra o Comércio das Indulgências" Movido pelo amor e pelo empenho em prol do esclarecimento da verdade, discutir-se-á em Wittemberg, sob a presidência do Rev. Padre Martinho Lutero, o que segue. Aqueles que não puderem estar presentes para tratarem o assunto verbalmente conosco, o poderão fazer por escrito. Em nome de nosso Senhor Jesus Cristo. Amém. 


1ª Tese Dizendo nosso Senhor e Mestre Jesus Cristo: Arrependei-vos... etc., certamente quer que toda a vida dos seus crentes na terra seja contínuo e ininterrupto arrependimento. 

2ª Tese E esta expressão não pode e não deve ser interpretada como referindo-se ao sacramento da penitência, isto é, à confissão e satisfação, a cargo dos sacerdotes. 

3ª Tese Todavia não quer que apenas se entenda o arrependimento interno; o arrependimento interno; o arrependimento interno nem mesmo é arrependimento quando não produz toda sorte de mortificação da carne. 

4ª Tese Assim sendo, o arrependimento e o pesar, isto é, a verdadeira penitência, perdura enquanto o homem se desagradar de si mesmo, a saber, até à entrada para a vida eterna. 

5ª Tese O papa não quer e não pode dispensar de outras penas além das que impôs ao seu alvitre ou nem acordo com os cânones, que são estatutos papais. 

6ª Tese O papa não pode perdoar dívida, senão declarar e confirmar aquilo que já foi perdoado por Deus, ou então o faz nos casos que lhe foram reservados. Nestes 

 7 casos, se desprezados, a dívida em absoluto deixaria de ser anulada ou perdoada. 

7ª Tese Deus a ninguém perdoa a dívida sem que ao mesmo tempo o subordine, em sincera humildade, ao ministro, seu substituto. 

8ª Tese Cânones poenitentiales, que são as ordenanças de prescrição da maneira em que se deve confessar e expiar, apenas são impostos aos vivos, e, de acordo com as mesmas ordenanças, não dizem respeito aos moribundos. 

9ª Tese Eis por que o Espírito Santo nos faz bem mediante o papa, excluindo este de todos os seus decretos ou direitos o artigo da morte e da necessidade suprema. 

10ª Tese Procedem desajuizadamente e mal os sacerdotes que reservam e impõe aos moribundos penitências canônicas ou para o purgatório a fim de ali serem cumpridas. 

11ª Tese Este joio, que é o de transformar a penitência e satisfação, prevista pelos cânones ou estatutos, em penitência ou penas do purgatório, foi semeado enquanto os bispos dormiam. 

12ª Tese Outrora canônica poenae, ou seja, penitência e satisfação por pecados cometidos, eram impostos, não depois, mas antes da absolvição, com a finalidade de provar a sinceridade do arrependimento e do pesar. 

13ª Tese Os moribundos tudo satisfazem com a sua morte e estão mortos para o direito canônico, sendo, portanto, dispensados, com justiça, de sua imposição. 

14ª Tese Piedade ou amor imperfeitos da parte daquele que se acha às portas da morte, necessariamente resultam em grande temor; logo, quanto menos o amor, tanto maior o temor. 

15ª Tese 8 Este temor e espanto em si tão só, sem nos referirmos a outras coisas, basta para causar o tormento e o horror do purgatório, pois se avizinham da angústia do desespero. 

16ª Tese Inferno, purgatório e céu parecem ser tão diferentes quanto o são um do outro o desespero completo, incompleto ou quase desespero e certeza. 

17ª Tese Parece que assim como no purgatório diminuem a angústia e o espanto das almas, também deve crescer e aumentar o amor. 

18ª Tese Bem assim parece não ter sido provado, nem por boas razões e nem pela Escritura, que as almas do purgatório se encontram fora da possibilidade do mérito ou do crescimento no amor. 

19ª Tese Parece ainda não ter sido provado que todas as almas do purgatório tenham certeza de sua salvação e não receiem mais por ela, não obstante nós termos esta certeza. 

20ª Tese Por isso o papa não quer dizer e nem compreender com as palavras “perdão plenário de todas as penas” o perdão de todo o tormento, mas tão só as penas por ele impostas. 

21ª Tese Eis por que erram os apregoadores de indulgências ao afirmarem ser o homem perdoado de todas as penas e salvo mediante indulgência do papa. 

22ª Tese Com efeito, o papa nenhuma pena dispensa às almas do purgatório das que, segundo os cânones da igreja, deviam ter expiado e pago na presente vida. 

23ª Tese Verdade é que se houver qualquer perdão plenário das penas, este apenas será dado aos mais perfeitos, que são muitos poucos. 

24ª Tese Logo, a maioria do povo é ludibriado com as pomposas promessas do indistinto perdão, impressionando-se o homem singelo com as penas pagas. 9 

25ª Tese Exatamente o mesmo poder geral que o papa tem sobre o purgatório, qualquer bispo e cura d’almas o tem no seu bispado e na sua paróquia, quer de modo especial e quer para com os seus em particular. 

26ª Tese O papa faz muito bem em não conceder o perdão às almas em virtude do poder das chaves (coisa que não possui), mas pela ajuda ou em forma de intercessão. 

27ª Tese Pregam futilidades humanas quantos alegam que no momento em que a moeda soa ao cair na caixa a alma se vai do purgatório. 

28ª Tese Certo é que, no momento em que a moeda soa na caixa, vem lucro, e o amor ao dinheiro cresce e aumenta; a ajuda, porém, ou a intercessão da igreja tão só correspondem à vontade e ao agrado de Deus. 

29ª Tese E quem sabe, se todas as almas do purgatório querem ser libertadas, quando há quem diga o que sucedeu com S. Severino e Pascoal. 

30ª Tese Ninguém tem certeza da suficiência do arrependimento e pesar verdadeiros, muito menos certeza pode ter de haver alcançado pleno perdão dos seus pecados. 

31ª Tese Tão raro como existe alguém que possui arrependimento e pesar verdadeiros, tão raro também é aquele que verdadeiramente alcança indulgência, sendo bem poucos os que se encontram. 

32ª Tese Irão para o diabo, juntamente com os seus mestres, aqueles que julgam obter certeza de sua salvação mediante breves de indulgência. 

33ª Tese Há que acautelar-se muito e ter cuidado daqueles que dizem: A indulgência do papa é a mais sublime e mais preciosa graça ou dádiva de Deus, pela qual o homem é reconciliado com Deus. 10 

34ª Tese Tanto assim que a graça da indulgência apenas se refere à pena satisfatória, estipulada por homens. 

35ª Tese Ensinam de maneira ímpia quantos alegam que aqueles que querem livrar almas do purgatório ou adquirir breves de confissão não necessitam de arrependimento e pesar. 

36ª Tese Tudo o cristão que se arrepende verdadeiramente dos seus pecados e sente pesar por ter pecado, tem pleno perdão da pena e da dívida, perdão esse que lhe pertence mesmo sem breve de indulgência. 

37ª Tese Todo e qualquer cristão verdadeiro, vivo ou morto, é participante de todos os bens de Cristo e da Igreja, por dádiva de Deus, mesmo sem breve de indulgência. 

38ª Tese Entretanto se não devem desprezar o perdão e a distribuição deste pelo papa. Pois, conforme declarei, o seu perdão consiste numa declaração do perdão divino. 

39ª Tese Ë extremamente difícil, mesmo para os mais doutos teólogos, exaltar diante do povo ao mesmo tempo a grande riqueza da indulgência e, ao contrário, o verdadeiro arrependimento e pesar. 

40ª Tese O verdadeiro arrependimento e pesar buscam e amam o castigo; mas a profusão da indulgência livra das penas e faz com que se as aborreça, pelo menos quando há oportunidade para tanto. 

41ª Tese É necessário pregar cautelosamente sobre a indulgência papal, para que o homem singelo não julgue erradamente ser a indulgência preferível às demais obras de caridade ou melhor do que elas. 11 

42ª Tese Deve-se ensinar aos cristãos, não ser pensamento e opinião do papa que a aquisição de indulgências de alguma maneira possa ser comparada com qualquer obra de caridade. 

43ª Tese Deve-se ensinar aos cristãos, proceder melhor quem dá aos pobres ou empresta ao necessitado do que os que compram indulgência. 

44ª Tese É que pela obra de caridade cresce o amor ao próximo e o homem torna-se mais piedoso; pelas indulgências, porém, não se torna melhor senão mais seguro e livre da pena. 

45ª Tese Deve-se ensinar aos cristãos que aquele que vê seu próximo padecer necessidade e a despeito disto gasta dinheiro com indulgências, não adquire indulgência do papa, mas desafia a ira de Deus. 

46ª Tese Deve-se ensinar aos cristãos que, se não tiverem fartura, fiquem com o necessário para a casa e de maneira nenhuma o esbanjem com indulgências. 

47ª Tese Deve-se ensinar aos cristãos ser a compra de indulgência livre e não ordenada. 

48ª Tese Deve-se ensinar aos cristãos que se o papa precisa conceder mais indulgências, mais necessita de uma oração fervorosa do que de dinheiro. 

49ª Tese Deve-se ensinar aos cristãos serem muito boas as indulgências do papa enquanto o homem não confiar nelas; mas muito prejudiciais quando, em conseqüência delas, se perde o temor de Deus. 

50ª Tese Deve-se ensinar aos cristãos que se o papa tivesse conhecimento da traficância dos apregoadores de indulgência, preferiria ver a basílica de São Pedro ser reduzida a cinzas a ser edificada com a pele, a carne e os ossos de suas ovelhas. 12

 51ª Tese Deve-se ensinar aos cristãos que o papa, por um dever seu, preferiria distribuir o seu dinheiro aos que em geral são despojados do dinheiro pelos apregoadores de indulgência, vendendo, se necessário, a própria basílica de São Pedro.

 52ª Tese Esperar ser salvo mediante breves de indulgência é vaidade e mentira, mesmo se o comissário de indulgências e o próprio papa oferecessem sua alma como garantia. 

53ª Tese São inimigos de Cristo e do papa quantos por causa da prédica de indulgências proíbem a palavra de Deus nas demais igrejas. 

54ª Tese Comete-se injustiça contra a palavra de Deus quando, no mesmo sermão, se consagra tanto ou mais tempo à indulgência do que à pregação da palavra do Senhor. 

55ª Tese A intenção do papa não pode ser outra do que celebrar a indulgência, que é a coisa menor, com um toque de sino, uma pompa, uma cerimônia, enquanto o evangelho, que é o essencial, importa ser anunciado mediante cem toques de sino, centenas de pompas e solenidades. 

56ª Tese Os tesouros da igreja, dos quais o papa tira e distribui as indulgências, não são bastante mencionados e nem suficientemente conhecidos na Igreja de Cristo. 

57ª Tese É evidente que não são bens temporais, porquanto muitos pregadores não os distribuem com facilidade, antes os ajuntam. 

58ª Tese Também não são os merecimentos de Cristo e dos santos, porquanto este sempre são suficientes, e, independente do papa, operam graça do homem interior e são a cruz, a morte e o inferno do homem exterior. 

59ª Tese São Lourenço chama aos pobres, os quais são membros da Igreja, tesouros da Igreja, mas no sentido em que a palavra era usada na sua época. 13 

60ª Tese Afirmamos com boa razão, sem temeridade ou leviandade, que estes tesouros são as chaves da Igreja, que lhe foram dadas pelo merecimento de Cristo. 

61ª Tese Evidente é que, para o perdão das penas e para a absolvição em determinados casos, o poder do papa por si só basta. 

62ª Tese O verdadeiro tesouro da Igreja é o santíssimo evangelho da glória e da graça de Deus. 

63ª Tese Este tesouro, porém, é muito desprezado e odiado, porquanto faz com que os primeiros sejam os últimos. 

64ª Tese Enquanto isso o tesouro das indulgências é notoriamente o mais apreciado, porque faz com que os últimos sejam os primeiros. 

65ª Tese Por essa razão os tesouros evangélicos foram outrora as redes com que se apanhavam os ricos e abastados.

 66ª Tese Os tesouros das indulgências, porém, são as redes com que hoje se apanham as riquezas dos homens. 

67ª Tese As indulgências, apregoadas pelos seus vendedores como a mais sublime graça, decerto assim são consideradas porque lhes trazem grandes proventos. 

68ª Tese Nem por isso semelhante indulgência é a mais ínfima graça, comparada com a graça de Deus e a piedade da cruz.

 69ª Tese Os bispos e os sacerdotes são obrigados a receber os comissários das indulgências apostólicas com toda reverência. 14 

70ª Tese Entretanto tem muito maior dever de conservar abertos os olhos e ouvidos, para que estes comissários, em vez de cumprirem as ordens recebidas do papa, não apregoem os seus próprios sonhos. 

71ª Tese Quem levanta a sua voz contra a verdade das indulgências papais é excomungado e maldito. 

72ª Tese Aquele, porém, que se insurgir contra as palavras insolentes e arrogantes dos apregoadores de indulgências, seja abençoado. 

73ª Tese Da mesma maneira em que o papa usa de justiça ao fulminar com a excomunhão aos que em prejuízo do comércio de indulgências procedem astuciosamente. 

74ª Tese Muito mais deseja atingir com o desfavor e a excomunhão àqueles que, sob pretexto de indulgências, prejudicam a santa caridade e a verdade pela sua maneira de agirem. 

75ª Tese Considerar a indulgência do papa tão poderosa, a ponto de absolver alguém dos pecados, mesmo que (coisa impossível de se expressar) tivesse deflorado a mãe de Deus, significa ser demente. 

76ª Tese Bem ao contrário afirmamos que a indulgência do papa nem mesmo pode anular o menor pecado venial no que diz respeito a culpa que representa. 

77ª Tese Afirmar que nem mesmo São Pedro, se no momento fosse papa, poderia dispensar maior indulgência, constitui insulto contra São Pedro e o papa. 

78ª Tese Dizemos, ao contrário, que o atual papa, e todos os que o sucederam, é detentor de muito maior indulgência, isto é, o evangelho, dom de curar, etc., de acordo com o que diz 1 Coríntios 12.6-9. 15 

79ª Tese Alegar ter a cruz de indulgências, erguida e adornada com as armas do papa, tanto valor como a própria cruz de Cristo é blasfêmia. 

80ª Tese Os bispos, padres e teólogos que consentem em semelhante linguagem diante do povo, terão de prestar contas desta atitude. 

81ª Tese Semelhante pregação, a enaltecer atrevida e insolentemente a indulgência, torna difícil até homens doutos defenderem a honra e dignidade do papa contra a calúnia e as perguntas mordazes e astutas dos leigos. 

82ª Tese Haja vista exemplo como este: Por que o papa não livra duma só vez todas as almas do purgatório, movido pela santíssima caridade e considerando a mais premente necessidade das mesmas, havendo santa razão para tanto, quando, em troca de vil dinheiro para a construção da basílica de São Pedro, livra inúmeras delas, logo por motivo bastante infundado? 

83ª Tese Outrossim: Por que continuam as exéquias e missas de ano em sufrágio das almas dos defuntos e não se devolve o dinheiro recebido para esse fim ou não se permite os doadores busquem de novo os benefícios ou prebendas oferecidos em favor dos mortos, quando já não é justo continuar a rezar pelos que se acham remidos? 

84ª Tese E: Que nova santidade de Deus e do papa é esta a consentir a um ímpio e inimigo resgate uma alma piedosa e agradável a Deus por amor ao dinheiro e não livrar esta mesma alma piedosa e amada por Deus do seu tormento por amor espontâneo e sem paga? 

85ª Tese E: Por que os cânones de penitência, isto é, os preceitos de penitência, que faz muito caducaram e morreram de fato pelo desuso, tornam a remir mediante dinheiro, pela concessão de indulgência, como se continuassem em vigor e bem vivos? 16 

86ª Tese E: Por que o papa, cuja fortuna é maior do que a de qualquer Creso, não prefere construir a basílica de São Pedro de seu próprio bolso em vez de o fazer com o dinheiro de cristãos pobres? 

87ª Tese E: Que perdoa ou concede o papa pela sua indulgência àqueles que pelo arrependimento completo tem direito ao perdão ou indulgência plenária? 

88ª Tese Afinal: Que benefício maior poderia receber a igreja se o papa, que atualmente o faz uma vez ao dia cem vezes ao dia concedesse aos fiéis este perdão a título gratuito? 

89ª Tese Visto o papa visar mais a salvação das almas mediante a indulgência do que o dinheiro, por que razão revoga os breves de indulgência outrora por ele concedidos, quando tem sempre as mesmas virtudes? 

90ª Tese Desfazer estes argumentos muito sutis dos leigos, recorrendo apenas à força e não por razões sólidas apresentadas, significa expor a igreja e o papa ao escárnio dos inimigos e desgraçar os cristãos. 

91ª Tese Se, portanto, a indulgência fosse apregoada no espírito e sentido do papa, estas objeções poderiam ser facilmente respondidas e nem mesmo teriam surgido. 17

 92ª Tese Fora, pois, com todos este pregadores que dizem à igreja de Cristo: Paz! Paz! Sem que haja paz! 

93ª Tese Abençoados, porém, sejam todos os pregadores que dizem à igreja de Cristo: Cruz! Cruz! Sem que haja cruz! 

94ª Tese Admoeste-se os cristãos a que se empenhem em seguir seu Cabeça, Cristo, através da cruz, da morte e do inferno;

 95ª Tese E desta maneira mais esperem entrar no reino dos céus por muitas aflições do que confiando em promessas de paz infundadas. 

Havia muita violência, baixa expectativa de vida, profundos contrastes socioeconômicos e um crescente sentimento nacionalista. Havia também muita insatisfação, tanto dos governantes como do povo, em relação à Igreja, principalmente ao alto clero e a Roma. Na área espiritual, havia insegurança e ansiedade acerca da salvação em virtude de uma religiosidade baseada em obras, também chamada de religiosidade contábil ou “matemática da salvação” (débitos = pecados; créditos = boas obras). Foi bastante inusitado o episódio mais imediato que desencadeou o protesto de Lutero. Desde meados do século 14, cada novo líder do Sacro Império Romano era escolhido por um colégio eleitoral composto de quatro príncipes e três arcebispos. Em 1517, quando houve a eleição de um novo imperador, um dos três arcebispados eleitorais (o de Mainz ou Mogúncia) estava vago. Uma das famílias nobres que participavam desse processo, os Hohenzollern, resolveu tomar para si esse cargo e assim ter mais um voto no colégio eleitoral. Um jovem da família, Alberto, foi escolhido para ser o novo arcebispo, mas havia dois problemas: ele era leigo e não tinha a idade mínima exigida pela lei canônica para exercer esse ofício. O primeiro problema foi sanado com a sua rápida ordenação ao sacerdócio. Quanto ao impedimento da idade, era necessária uma autorização especial do papa, o que levou a um negócio altamente vantajoso para ambas as partes. A família nobre comprou a autorização do papa Leão X mediante um empréstimo feito junto aos banqueiros Fugger, de Augsburgo. Ao mesmo tempo, o papa autorizou o novo arcebispo Alberto de Brandemburgo a fazer uma venda especial de indulgências, dividindo os rendimentos da seguinte maneira: parte serviria para o pagamento do empréstimo feito pela família e a outra parte iria para as obras da Catedral de São 7 Pedro, em Roma. E assim foi feito. Tão logo foi instalado no seu cargo, Alberto encarregou o dominicano João Tetzel de fazer a venda das indulgências (o perdão das penas temporais do pecado). Quando Tetzel aproximou-se de Wittenberg, Lutero resolveu pronunciar-se sobre o assunto. 2.2 Martinho Lutero (1483-1546) Martinho Lutero nasceu em 1483 na pequena cidade de Eisleben, na Turíngia, em um lar muito religioso. Seu pai trabalhava nas minas e a família tinha uma vida confortável. Inicialmente, o jovem pretendeu seguir a carreira jurídica, mas em 1505 defrontou-se com a morte em uma tempestade e resolveu abraçar a vida religiosa. Ingressou no mosteiro agostiniano de Erfurt, onde se dedicou a uma intensa busca da salvação. Em 1512, tornou-se professor da Universidade de Wittenberg, onde passou a ministrar cursos sobre vários livros da Bíblia, como Gálatas e Romanos. Isso lhe deu um novo entendimento acerca da “justiça de Deus”: ela não era simplesmente uma expressão da severidade de Deus, mas do seu amor que justifica o pecador mediante a fé em Jesus Cristo (Rom 1.17). No dia 31 de outubro de 1517, diante da venda das indulgências por João Tetzel, Lutero afixou à porta da igreja de Wittenberg as suas Noventa e Cinco Teses, a maneira usual de convidar-se uma comunidade acadêmica para debater algum assunto. Logo, uma cópia das teses chegou às mãos do arcebispo, que as enviou a Roma. No ano seguinte, Lutero foi convocado para ir a Roma a fim de responder à acusação de heresia. Recusando-se a ir, foi entrevistado pelo cardeal Cajetano e manteve as suas posições. Em 1519, Lutero participou de um debate em Leipzig com o dominicano João Eck, no qual defendeu o pré-reformador João Hus e afirmou que os concílios e os papas podiam errar. Em 1520, a bula papal Exsurge Domine (= “Levanta-te, Senhor”) deu-lhe sessenta dias para retratar-se ou ser excomungado. Os estudantes e professores da universidade queimaram a bula e um exemplar da lei canônica em praça pública. Nesse mesmo ano, Lutero escreveu várias obras importantes, especialmente três: À Nobreza Cristã da Nação Alemã, O Cativeiro Babilônico da Igreja e A Liberdade do Cristão. Isso lhe deu notoriedade imediata em toda a Europa e aumentou a sua popularidade na Alemanha. No início de 1521, foi publicada a bula de excomunhão, 8 Decet Pontificem Romanum. Nesse ano, Lutero compareceu a uma reunião do parlamento, a Dieta de Worms, onde reafirmou as suas idéias. Foi promulgado contra ele o Edito de Worms, que o levou a refugiar-se no castelo de Wartburgo, sob a proteção do príncipe-eleitor da Saxônia, Frederico, o Sábio. Ali, Lutero começou a produzir uma obra-prima da literatura alemã, a sua tradução das Escrituras. 2.3 A Reforma na Alemanha A partir de então, a reforma luterana difundiu-se rapidamente no Sacro Império, sendo abraçada por vários principados alemães. Isso levou a dificuldades crescentes com os principados católicos, com o novo imperador Carlos V (1519- 1556) e com o parlamento (Dieta). Na Dieta de 1526, houve uma atitude de tolerância para com os luteranos, mas em 1529 a Dieta de Spira reverteu essa política conciliadora. Diante disso, os líderes luteranos fizeram um protesto formal que deu origem ao nome histórico “protestantes”. No ano seguinte, o auxiliar e eventual sucessor de Lutero, Filipe Melanchton (1497-1560), apresentou ao imperador Carlos V a Confissão de Augsburgo, um importante documento que definia em 21 artigos a doutrina luterana e indicava sete erros que Lutero via na Igreja Católica Romana. Os problemas político-religiosos levaram a um período de guerras entre católicos e protestantes (1546-1555), que terminaram com um tratado, a Paz de Augsburgo. Esse tratado assegurou a legalidade do luteranismo mediante o princípio “cujus regio, eius religio”, ou seja, a religião de um príncipe seria automaticamente a religião oficial do seu território. O luteranismo também se difundiu em outras partes da Europa, principalmente nos países nórdicos, surgindo igrejas nacionais luteranas na Suécia (1527), Dinamarca (1537), Noruega (1539) e Islândia (1554). Lutero e os demais reformadores defenderam alguns princípios básicos que viriam a caracterizar as convicções e práticas protestantes: sola Scriptura, solo Christo, sola gratia, sola fides, soli Deo gloria. Outro princípio aceito por todos foi o do sacerdócio universal dos fiéis. 2.4 Ulrico Zuínglio (1484-1531) 9 Ulrico Zuínglio recebeu uma educação esmerada, com forte influência humanista. Inicialmente, foi sacerdote em Glarus (1506) e em Einsiedeln (1516). Influenciado pelo Novo Testamento publicado por Erasmo de Roterdã, tornou-se um estudioso das Escrituras e um pregador bíblico. Com isso, foi chamado para trabalhar na catedral de Zurique em 1518. Quatro anos mais tarde, surgiram as primeiras divergências com a doutrina católica. Zuínglio defendeu o consumo de carne na quaresma e o casamento dos sacerdotes, alegando não serem essas coisas proibidas nas Escrituras. Ele propôs o princípio de que tudo devia ser julgado pela Bíblia. Em 1523, houve o primeiro debate público em Zurique e a cidade começou a tornarse protestante. O reformador escreveu os Sessenta e Sete Artigos – a carta magna da reforma de Zurique – nos quais defendeu a salvação somente pela graça, a autoridade da Escritura e o sacerdócio dos fiéis, bem como atacou o primado do papa e a missa. Esse movimento suíço, conhecido como a “segunda reforma”, deu origem às igrejas “reformadas”, difundindo-se inicialmente na Suíça alemã e no sul da Alemanha. Em 1525, o Conselho Municipal de Zurique adotou o culto em lugar da missa e em geral promoveu mudanças mais radicais do que as efetuadas por Lutero. Como estava acontecendo na Alemanha, também na Suíça houve guerras entre católicos e protestantes. Em 1529, travou-se a primeira batalha de Kappel. No mesmo ano, a Dieta de Spira mostrou aos protestantes a necessidade de uma aliança contra os seus adversários. Para tanto, era necessário que resolvessem algumas diferenças doutrinárias. Isso levou ao Colóquio de Marburg, convocado pelo príncipe Filipe de Hesse. Luteranos e reformados concordaram sobre a maior parte das questões doutrinárias, mas divergiram seriamente sobre o significado da Santa Ceia. Em 1531, Zuínglio morreu na segunda batalha de Kappel. 2.5 Os Reformadores Radicais (Anabatistas) O terceiro movimento da Reforma Protestante surgiu na própria cidade de Zurique. Em 1522, homens como Conrado Grebel e Félix Mantz começaram a reunir-se com amigos para estudar a Bíblia. Inicialmente, eles apoiaram a obra de Zuínglio, mas a partir de 1524 passaram a condenar tanto Zuínglio quanto as autoridades municipais, alegando que a sua obra de reforma não estava sendo profunda o 10 suficiente. Por causa de sua insistência no batismo de adultos, foram apelidados de “anabatistas”, ou seja, rebatizadores, sendo também chamados de radicais, fanáticos, entusiastas e outras designações. Por causa de suas atividades de protesto, nas quais chegavam a interromper cultos e celebrações da ceia, os líderes anabatistas sofreram punições de severidade crescente. Em 1526, Grebel morreu em uma epidemia, mas seu pai foi decapitado, Mantz foi afogado e outro líder, Jorge Blaurock, foi expulso da cidade. O movimento logo se difundiu nas vizinhas Alemanha e Áustria e em outras partes da Europa. Um importante líder em Estrasburgo foi Miguel Sattler (c.1490-1527), que presidiu a conferência de Schleitheim (1527), na qual os anabatistas aprovaram a Confissão de Fé de Schleitheim. Essa confissão definiu os princípios anabatistas básicos: ideal de restauração da igreja primitiva; igrejas vistas como congregações voluntárias separadas do Estado; batismo de adultos por imersão; afastamento do mundo; fraternidade e igualdade; pacifismo; proibição do porte de armas, cargos públicos e juramentos. Os anabatistas foram os únicos protestantes do século 16 a defenderem a completa separação entre a igreja e o estado. Os anabatistas adquiriram uma reputação negativa por causa de acontecimentos ocorridos na cidade de Münster (1532-1535). Influenciados por Melchior Hoffman, que anunciou o fim do mundo e a destruição dos ímpios, alguns anabatistas implantaram uma teocracia intolerante naquela cidade alemã. Finalmente, foram todos mortos por um exército católico. Já na Holanda, o movimento teve um líder equilibrado e capaz na pessoa de Menno Simons (1496-1561), do qual vieram os menonitas. Outro líder de expressão foi Jacob Hutter (†1536), na Morávia. Os menonitas e os huteritas viviam em colônias, tendo tudo em comum (ver Atos 2.44; 4.32). Cruelmente perseguidos em toda a Europa, muitos deles eventualmente emigraram para a América do Norte. 2.6 João Calvino (1509-1564) João Calvino nasceu em Noyon, no nordeste da França. Seu pai, Gérard Cauvin, era secretário do bispo e advogado da igreja naquela cidade; sua mãe Jeanne Lefranc, morreu quando ele ainda era uma criança. Após os primeiros estudos em sua cidade, Calvino seguiu para Paris, onde estudou teologia e humanidades (1523- 11 1528). A seguir, por determinação do pai, foi estudar direito nas cidades de Orléans e Bourges (1528-1531). Com a morte do pai, retornou a Paris e deu prosseguimento aos estudos humanísticos, publicando sua primeira obra, um comentário do tratado de Sêneca Sobre a Clemência. Calvino converteu-se provavelmente em 1533. No dia 1º de novembro daquele ano, seu amigo Nicholas Cop fez um discurso de posse na Universidade de Paris repleto de idéias protestantes. Calvino foi considerado o co-autor do discurso e os dois amigos tiveram de fugir para salvar a vida. Calvino foi para a cidade de Angouleme, onde começou a escrever a sua obra mais importante, Instituição da Religião Cristã ou Institutas, publicada em Basiléia em 1536 (a última edição seria publicada somente em 1559). Após voltar por breve tempo ao seu país, Calvino decidiu fixar-se na cidade protestante de Estrasburgo, onde atuava o reformador Martin Butzer (1491-1551). No caminho, ocorreu um episódio marcante. Impossibilitado de seguir diretamente para Estrasburgo por causa de guerra entre a França e a Alemanha, o futuro reformador fez um longo desvio, passando por Genebra, na Suíça francesa. Essa cidade havia abraçado o protestantismo reformado há apenas dois meses (maio de 1536), sob a liderança de Guilherme Farel (1489-1565). Este, sabendo que o autor das Institutas estava de passagem pela cidade, o “convenceu” a permanecer ali e ajudá-lo. 2.7 A Reforma em Genebra Logo, Calvino e Farel entraram em conflito com os magistrados de Genebra e dois anos depois foram expulsos. Calvino seguiu então para Estrasburgo, onde passou os três anos mais felizes e produtivos da sua carreira (1538-1541). Naquela cidade, ele pastoreou uma igreja de refugiados franceses, casou-se com a viúva Idelette de Bure (†1549), lecionou na academia de João Sturm, participou de conferências religiosas ao lado de Martin Butzer e publicou algumas obras importantes, entre elas a segunda edição das Institutas e o Comentário de Romanos, o primeiro dos muitos que escreveu. Eventualmente, os magistrados de Genebra insistiram no seu retorno. Calvino aceitou com a condição de que pudesse escrever a constituição da Igreja Reformada de Genebra. Essa importante obra, as Ordenanças Eclesiásticas, previa 12 quatro categorias de oficiais: pastores, encarregados da pregação e dos sacramentos; doutores para o estudo e ensino da Bíblia; presbíteros, com funções disciplinares; e diáconos, encarregados da beneficência. Os pastores e os doutores formavam a Companhia dos Pastores; os pastores e os presbíteros integravam o Consistório, uma espécie de tribunal eclesiástico. Calvino teve um relacionamento tenso com as autoridades municipais até 1555. No final desse período, em 1553, o médico espanhol Miguel Serveto foi condenado e executado por heresia. Calvino teve uma participação nesse episódio, lamentada por seus herdeiros, o que não anula a sua grande obra como reformador, escritor, teólogo e líder eclesiástico. Em 1559, um ano especialmente significativo, o reformador tornou-se cidadão de Genebra, fundou a sua Academia, embrião da Universidade de Genebra, e publicou a última edição das Institutas. A visão do reformador francês era tornar Genebra uma cidade-cristã-modelo através da reorganização da Igreja, de um ministério bem preparado, de leis que expressassem uma ética bíblica e de um sistema educacional completo e gratuito. O resultado foi que Genebra tornou-se um grande centro do protestantismo, preparando líderes reformados para toda a Europa e abrigando centenas de refugiados. O calvinismo veio a ser o mais completo sistema teológico protestante, tendo por princípio básico a soberania de Deus e suas implicações, soteriológicas e outras. Foi essa a origem das Igrejas reformadas (continente europeu) ou presbiterianas (Ilhas Britânicas). Os principais países em que se difundiu o movimento reformado foram, além da Suíça e da França, o sul da Alemanha, a Holanda, a Hungria e a Escócia. Calvino também se notabilizou como um erudito bíblico. Escreveu comentários sobre quase todo o Novo Testamento e os principais livros do Antigo Testamento. Seus sermões e preleções também expuseram amplamente as Escrituras. Além disso, escreveu muitos opúsculos, tratados e cartas. Mas a maior das suas obras são as Institutas, nas quais ele expôs todos os aspectos da doutrina cristã, apelando às Escrituras e ao testemunho dos antigos pais da igreja. Em muitas de suas obras, se vê uma mão que sustenta um coração, e ao redor as palavras Cor meum tibi offero Domine, prompte et sincere (“O meu coração te ofereço, ó Senhor, de modo pronto e sincero”). 13 2.8 Implicações Práticas Os reformadores não estavam buscando inovar, mas restaurar antigas verdades bíblicas que haviam sido esquecidas ou obscurecidas pelo tempo e pelas tradições humanas. Sua maior contribuição foi chamar a atenção das pessoas para a importância das Escrituras e seus grandes ensinos, especialmente no que diz respeito à salvação e à vida cristã. Para que as Igrejas Evangélicas atuais possam manter-se fiéis à sua vocação, é preciso que julguem tudo pelas Escrituras, acolhendo o que é bom e lançando fora o que é mau. Os reformadores nos mostraram que o critério da verdade não são os ensinos humanos, nem a experiência espiritual subjetiva, mas o Espírito Santo falando na Palavra e pela Palavra. 



V.  A Reforma Protestante – 2ª Parte 

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3.1 A Reforma na Inglaterra Vários fatores contribuíram para a introdução da Reforma Protestante na Inglaterra: o anticlericalismo de uma grande parcela do povo e dos governantes, as idéias do pré-reformador João Wycliff, a penetração de ensinos luteranos a partir de 1520, o Novo Testamento traduzido por William Tyndale (1525) e a atuação de refugiados que voltaram de Genebra. Todavia, quem deu o passo decisivo para que a Inglaterra começasse a tornar-se protestante foi o rei Henrique VIII. Henrique VIII (1491-1547) começou a reinar em 1509. Sendo muito católico, em 1521 escreveu um folheto contra Lutero que lhe valeu o título de “defensor da fé”. Era casado com a princesa espanhola Catarina de Aragão, viúva do seu irmão, que não conseguiu dar-lhe um filho varão, mas somente uma filha, Maria. Henrique pediu ao papa Clemente VII que anulasse o seu casamento com Catarina para que pudesse casar-se com Ana Bolena (Anne Boleyn), mas o papa não pode atendê-lo nesse desejo. Uma das principais razões foi o fato de que Catarina era tia do sacro imperador germânico Carlos V. Em 1533, Thomas Cranmer (1489-1556) foi nomeado arcebispo de Cantuária e poucos meses depois declarou nulo o casamento do rei. Em 1534, o parlamento aprovou o Ato de Supremacia, pelo qual a Igreja Católica inglesa desvinculou-se de Roma e o rei foi declarado “Protetor e 14 Único Chefe Supremo da Igreja da Inglaterra.” O bispo John Fisher e o ex-chanceler Thomas More opuseram-se a essas medidas e foram executados (1535); os numerosos mosteiros do país foram extintos e suas propriedades confiscadas (1536- 1539). Nos anos seguintes, Henrique ainda teria outras quatro esposas: Jane Seymour, Ana de Cleves, Catarina Howard e Catarina Parr. Henrique morreu na fé católica e foi sucedido no trono por Eduardo VI (1547-1553), o filho que teve com Jane Seymour. Os tutores do jovem rei implantaram a Reforma na Inglaterra e puseram fim às perseguições contra os protestantes. Foram aprovados dois importantes documentos escritos pelo arcebispo Cranmer, o Livro de Oração Comum (1549; revisto em 1552) e os Quarenta e Dois Artigos (1553), uma síntese das teologias luterana e calvinista. Eduardo era doentio e morreu ainda jovem, sendo sucedido por sua irmã Maria Tudor (1553-1558), conhecida como “a sanguinária”, filha de Catarina de Aragão. Maria perseguiu os líderes protestantes e muitos foram levados à fogueira. Os mártires mais famosos foram Hugh Latimer, Nicholas Ridley e Thomas Cranmer. Muitos outros, os chamados “exilados marianos”, foram para Genebra, Estrasburgo e outras cidades protestantes. Com a morte de Maria, subiu ao trono sua meio-irmã Elizabete I (1558-1603), filha de Ana Bolena, em cujo reinado a Inglaterra tornou-se definitivamente protestante. Em 1563, foi promulgado o Ato de Uniformidade, que aprovou os Trinta e Nove Artigos. O resultado foi o acordo anglicano, que reuniu elementos das principais teologias evangélicas, bem como traços católicos, especialmente na área da liturgia. Além dos anglicanos, havia outros grupos protestantes na Inglaterra, como os puritanos, presbiterianos e congregacionais. Os puritanos surgiram no reinado de Elizabete e foram assim chamados porque reivindicavam uma Igreja pura em sua doutrina, culto e forma de governo. Reprimidos na Inglaterra, muitos puritanos foram para a América do Norte, estabelecendo-se em Plymouth (1620) e Boston (1630), na Nova Inglaterra. Outro grupo protestante inglês foram os batistas, surgidos a partir de 1607 sob a liderança de John Smyth e Thomas Helwys. Este fundou em 1612 a primeira igreja batista geral. No século 17, no contexto da guerra civil entre o rei Carlos I e um parlamento puritano, foi convocada a Assembléia de Westminster (1643-1649). Essa célebre 15 assembléia elaborou uma série de documentos calvinistas para a Igreja da Inglaterra, entre os quais a Confissão de Fé e os Catecismos Maior e Breve, que se tornaram os principais símbolos confessionais das Igrejas reformadas ou presbiterianas. 3.2 A Reforma na Escócia O protestantismo começou a ser difundido na Escócia por homens como Patrick Hamilton e George Wishart, ambos martirizados. Todavia, o presbiterianismo foi introduzido graças aos esforços do reformador John Knox (†1572), um discípulo de Calvino que, após passar alguns anos em Genebra, retornou ao seu país em 1559. No ano seguinte, o parlamento escocês criou a Igreja da Escócia (presbiteriana). Knox fez oposição tenaz à rainha católica Maria Stuart (1542-1587), prima de Elizabete, que viveu na França (1548-1561) e voltou à Escócia para tomar posse do trono. A aceitação do protestantismo ocorreu no contexto da luta pela independência do domínio francês. Alguns anos mais tarde, Maria Stuart teve de fugir e buscar refúgio na Inglaterra, onde foi executada por ordem de Elizabete em 1587. Foi na Escócia que surgiu o conceito político-religioso de “presbiterianismo”. Os reis ingleses e escoceses sempre foram firmes defensores do episcopalismo, ou seja, de uma Igreja governada por bispos. A razão disso é que, sendo os bispos nomeados pelos reis, a Igreja seria mais facilmente controlada pelo estado e serviria aos interesses do mesmo. À luz das Escrituras, os presbiterianos insistiram em uma Igreja governada por oficiais eleitos pela comunidade, os presbíteros, tornando assim a Igreja livre da tutela do Estado. Foi somente após um longo e tumultuado processo que o presbiterianismo implantou-se definitivamente na Escócia. 3.3 A Reforma na França O movimento reformado francês surgiu na década de 1530. Inicialmente tolerante, o rei Francisco I (1515-1547) eventualmente mostrou-se hostil contra os reformados. Henrique II (1547-1559) foi ainda mais severo que o seu pai. Em 1559, reuniu-se o primeiro sínodo nacional da Igreja Reformada da França, que aprovou a Confissão Galicana. Em 1561, havia duas mil congregações reformadas no país, compostas de artesãos, comerciantes e até mesmo de algumas famílias nobres, como os Bourbon 16 e os Montmorency. Os reformados franceses, conhecidos como huguenotes, estavam concentrados principalmente no oeste e sudoeste do país, e recebiam decidido apoio de Genebra. Ao norte e leste estava a facção ultracatólica liderada pela poderosa família Guise-Lorraine. No reinado de Francisco II (1559-1560), os Guise controlaram o governo. Quando Carlos IX (1560-1574) tornou-se rei, sendo ainda menor, sua mãe Catarina de Médici assumiu a regência, mostrando-se inicialmente tolerante para com os huguenotes. Tentando conciliar as duas facções, ela promoveu um encontro de católicos e protestantes, o Colóquio de Poissy, em 1561. Com o fracasso desse encontro, houve um longo período de guerras religiosas (1562-1598), cujo episódio mais chocante foi o massacre do Dia de São Bartolomeu (24-08-1572). Centenas de huguenotes achavam-se em Paris para o casamento da filha de Catarina com o nobre protestante Henrique de Navarra. Na calada da noite, os huguenotes foram assassinados à traição enquanto dormiam, entre eles o seu principal líder, almirante Gaspard de Coligny. Nos dias seguintes, muitos milhares foram mortos no interior da França. Mais tarde, quando o nobre huguenote tornou-se rei, com o título de Henrique IV, ele promulgou em favor dos seus correligionários o Edito de Nantes (1598), concedendo-lhes uma tolerância limitada. Esse edito seria revogado pelo rei Luís XIV em 1685, dando início a um novo período de duras provações para os reformados franceses. 3.4 A Reforma nos Países Baixos Os Países Baixos eram parte do Sacro Império Germânico e depois ficaram sob o domínio da Espanha. Durante o reinado do imperador Carlos V, surgiram naquela região luteranos, anabatistas e principalmente calvinistas, por volta de 1540. Desde o início foram objeto de intensas perseguições, tendo a repressão aumentado sob o rei Filipe II (1555) e o governador Duque de Alba (1567). A revolta contra a tirania espanhola foi liderada pelo alemão Guilherme de Orange, grande defensor da plena liberdade religiosa, que seria assassinado em 1584. Eventualmente, os Países Baixos dividiram-se em três nações: Bélgica e Luxemburgo (católicas) e Holanda (protestante). 17 A Igreja Reformada Holandesa foi organizada na década de 1570. No início do século 17, surgiu uma forte controvérsia por causa das idéias de Tiago Armínio. O Sínodo de Dort (1618-1619) rejeitou as idéias de Armínio e afirmou os chamados “cinco pontos do calvinismo”, cujas iniciais formam em inglês a palavra “tulip” (tulipa): Depravação total ( Total depravity), Eleição incondicional (Unconditional election), Expiação limitada (Limited atonement), Graça irresistível (Irresistible Grace) e Perseverança dos santos (Perseverance of the saints). 3.5 A Contra-Reforma Ao analisarem as ações da Igreja Católica Romana após o surgimento do protestantismo, os historiadores falam em dois aspectos: Contra-Reforma e Reforma Católica. O primeiro foi o esforço da Igreja Romana para reorganizar-se e lutar contra o protestantismo. Essa reação ocorreu tanto no plano dogmático quanto político-militar. Já a Reforma Católica revelou a preocupação de corrigir certos problemas internos do catolicismo em resposta às críticas dos protestantes e de outros grupos. Foram vários os elementos dessa reação. Na Espanha, houve notáveis manifestações de uma rica espiritualidade mística, cujos representantes mais destacados foram Teresa de Ávila e João da Cruz. Além do misticismo espanhol, outro sinal da revitalização católica foi o surgimento de várias ordens religiosas, das quais a mais importante foi a Sociedade de Jesus, fundada pelo espanhol Inácio de Loiola (1491-1556) e oficializada pelo papa em 1540. Além dos votos usuais de pobreza, castidade e obediência aos superiores, os jesuítas faziam um voto adicional de submissão incondicional ao papa. Seu objetivo era a expansão e o fortalecimento da fé católica através de missões, educação e combate à heresia. Os jesuítas exerceram forte influência sobre governantes e contribuíram decisivamente para a supressão do protestantismo em várias regiões da Europa, como a Espanha e a Polônia. O instrumento mais eficaz tanto da Contra-Reforma quanto da Reforma Católica foi o Concílio de Trento, que se reuniu em três séries de sessões entre 1545 e 1563. Seus decretos rejeitaram explicitamente as doutrinas protestantes e oficializaram o tomismo (a teologia de Tomás de Aquino), a Vulgata Latina e os livros denominados 18 apócrifos ou deuterocanônicos. Outros instrumentos da Contra-Reforma foram o Índice de Livros Proibidos (Index Librorum Prohibitorum, 1559) e a Inquisição, especialmente em suas versões espanhola e romana. Como expressão do dinamismo católico nesse período, as ordens dos franciscanos, dominicanos e jesuítas realizaram uma grande obra missionária no Oriente e nas Américas. No território do Sacro Império, os conflitos entre católicos e protestantes continuaram por muitas décadas, atingindo o seu auge na tenebrosa Guerra dos Trinta Anos, que envolveu metade do continente europeu. Essa guerra terminou com a Paz de Westfália (1648), que fixou definitivamente as fronteiras político-religiosas da Europa e marcou o final do período da Reforma. 3.6 Implicações Práticas A história da Reforma nem sempre é agradável e inspiradora. Por causa das profundas conexões entre elementos religiosos e políticos, esse período foi marcado por muita violência em nome da fé. Porque a religião é uma coisa muito importante para as pessoas, as paixões que desperta podem se tornar terrivelmente destrutivas. Os erros cometidos nessa área por diferentes grupos nos séculos 16 e 17 nos servem de advertência e de estímulo para a prática da caridade cristã e da tolerância, conforme o exemplo de Cristo. Podemos, sem abrir mão de nossas convicções, respeitar os que pensam diferente de nós. Ao mesmo tempo, nos impressionamos com o heroísmo de tantos irmãos nossos da época da Reforma, que por causa de sua fé enfrentaram muitas provações e até mesmo mortes cruéis. O evangelho já não exige esse tipo de sacrifício da maioria dos cristãos do Ocidente, mas isso não significa que estamos livres de grandes desafios. São outras as maneiras pelas quais a nossa fé é testada no tempo presente. Viver de acordo com os princípios e os valores do Reino de Deus continua sendo uma prova difícil, mas necessária, para todos os cristãos. 



SUGESTÕES DE REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 

19 BETTENSON, Henry, Documentos da igreja cristã (São Paulo: ASTE, 1967); 3ª ed. revista, corrigida e atualizada (São Paulo: ASTE/Simpósio, 1998). Uma ótima coletânea de fontes primárias dos diferentes períodos da história da igreja. 

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segunda-feira, 23 de outubro de 2017

O que Moisés e Elias falaram com Jesus

Por Jânio Santos de Oliveira


 Pastor e professor da Igreja evangélica Assembléia de Deus em Santa Cruz da Serra
Pastor Presidente: Eliseu Cadena


Contatos 0+operadora 21 36527277 ou 21 xx 990647385 (claro)

Meus amados e queridos irmãos em Cristo Jesus, a Paz do Senhor!

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Nesta oportunidade nós estaremos abrindo a Palavra de Deus que se encontra em Mateus 17.1-8

1 - Seis dias depois, tomou Jesus consigo a Pedro, e a Tiago, e a João, seu irmão, e os conduziu em particular a um alto monte.

2 - E transfigurou-se diante deles; e o seu rosto resplandeceu como o sol, e as suas vestes se tornaram brancas como a luz.

3 - E eis que lhes apareceram Moises e Elias, falando com ele.

4 - E Pedro, tomando a palavra, disse a Jesus: Senhor, bom e estarmos aqui; se queres, façamos aqui três tabernáculos, um para ti, um para Moises e um para Elias.

5- E, estando ele ainda a falar, eis que uma nuvem luminosa os cobriu. E da nuvem saiu uma voz que dizia: Este e o meu Filho amado, em quem me comprazo; escutai-o.

6 - E os discípulos, ouvindo isso, caíram sobre seu rosto e tiveram grande medo.

7 - E, aproximando-se Jesus, tocou-lhes e disse: Levantai-vos e não tenhais medo.

8 - E, erguendo eles os olhos, ninguém viram, senão a Jesus.



Moisés e Elias vieram ter com Jesus a fim de fortalecê-lo para 

enfrentar os dias difíceis que teria pela frente. Dias de prisão, 

julgamento e morte.
Moisés e Elias vieram ter com Jesus representando o futuro reino 

de Deus a ser implantado pela morte de Cristo. Elias, 

representando os que serão transladados sem ver a morte. E 

Moisés representando os que após a morte, forem ressuscitados 

por Deus para vida eterna.


I.  Jesus aparece como a figura principal; enquanto Moisés e Elias são personagens secundários .


O relato sobre a transfiguração, conforme narrado nos evangelhos sinóticos, e um dos mais emblemáticos do Novo Testamento (Mt 1 7.1 -1 3 Mc 9.2-8; Lc 9.28-36). Além do nome de Moises, o texto coloca em evidencia também o de Elias. Entretanto, diferentemente dos outros textos ate aqui estudados, o profeta não aparece aqui como a figura central, mas secundaria! O centro e deslocado do profeta de Tisbe para o Profeta de Nazaré, Jesus. E não mais Elias. Moises, Pedro, Tiago e João, também nominados nesse texto, aparecem como figurantes numa cena onde Cristo, o Messias prometido, é a figura principal.

Tanto Moisés como Elias realmente apareceram e estes falavam com Jesus acerca da sua "morte". Jesus sabia todas as coisas e não necessitava que lhe contassem qualquer coisa, porém era necessário, pois se assim não fosse Ele, Cristo, não teria levado seus principais - por questão de afinidade - discípulos ao monte para presenciarem este fato.  

Mt 17.3- E eis que lhes apareceram Moises e Elias, falando com Ele.

Luc. 9:31 apresenta a natureza da conversa: Os quais apareceram em gloria e falavam da sua partida, que ele estava para cumprir cm Jerusalém. A expressão no grego, traduzida por e eis, serve de elemento comum que introduz uma característica ou elemento principal do acontecimento narrado. Elemento notável foi a aparição de duas personagens famosas do V.T. Alguns interpretes não aceitam a aparição objetiva desses homens, mas acham que o acontecimento foi um tipo de visão que dispensava a presença literal dos mesmos. Mas. a maior parte dos interpretes compreende corretamente que eles realmente apareceram, e não ha razão alguma para que se negue a possibilidade de tal aparição. Isso não tem sido raro na historia do homem, e as Escrituras afirmam a sobrevivência e a existência posterior daqueles que já morreram. No caso de Elias, que não passou pela morte, talvez tenhamos razão cm pensar que ele passou pela transformação do corpo terrestre para o corpo celeste, o que sucedera aos corpos dos verdadeiros discípulos quando do arrebatamento da igreja.claramente são suposições errôneas. A experiência mística, especialmente do tipo acompanhado por alguma visão, traz consigo mesma a sua interpretação, o sentido e as razoes da visão. Naquela oportunidade os discípulos não compreendiam ainda tudo isso, mas tal entendimento veio mais tarde. Pelo menos compreenderam que a visão salientava a gloria de Jesus como Messias: e provavelmente também entenderam que o acontecido foi motivo de consolo c revigoramento. tanto para Jesus (que breve haveria de enfrentar a cruz) como para eles mesmos, especialmente por que servia de fator de fortalecimento da fê em uma ocasião difícil. Mais tarde, a ocorrência serviu para fortalecer a vida crista em todas os seus aspectos, por haver demonstrado tão claramente a gloria, o poder c a elevada posição de Jesus. como o rei do reino eterno, depois da parousia.







II. O sofrimento de Moisés com a Nação de Israel


Então toda a congregação levantou a sua voz; e o povo chorou naquela noite.

E todos os filhos de Israel murmuraram contra Moisés e contra Arão; e toda a congregação lhes disse: Quem dera tivéssemos morrido na terra do Egito! ou, mesmo neste deserto!
E por que o Senhor nos traz a esta terra, para cairmos à espada, e para que nossas mulheres e nossas crianças sejam por presa? Não nos seria melhor voltarmos ao Egito?
E diziam uns aos outros: Constituamos um líder, e voltemos ao Egito.
Então Moisés e Arão caíram sobre os seus rostos perante toda a congregação dos filhos de Israel.
E Josué, filho de Num, e Calebe filho de Jefoné, dos que espiaram a terra, rasgaram as suas vestes.
E falaram a toda a congregação dos filhos de Israel, dizendo: A terra pela qual passamos a espiar é terra muito boa.
Se o Senhor se agradar de nós, então nos porá nesta terra, e no-la dará; terra que mana leite e mel.
Tão-somente não sejais rebeldes contra o Senhor, e não temais o povo dessa terra, porquanto são eles nosso pão; retirou-se deles o seu amparo, e o Senhor é conosco; não os temais.
Mas toda a congregação disse que os apedrejassem; porém a glória do Senhor apareceu na tenda da congregação a todos os filhos de Israel.
E disse o Senhor a Moisés: Até quando me provocará este povo? e até quando não crerá em mim, apesar de todos os sinais que fiz no meio dele?
Com pestilência o ferirei, e o rejeitarei; e te farei a ti povo maior e mais forte do que este.
E disse Moisés ao Senhor: Assim os egípcios o ouvirão; porquanto com a tua força fizeste subir este povo do meio deles.
E dirão aos moradores desta terra, os quais ouviram que tu, ó Senhor, estás no meio deste povo, que face a face, ó Senhor, lhes apareces, que tua nuvem está sobre ele e que vais adiante dele numa coluna de nuvem de dia, e numa coluna de fogo de noite.
E se matares este povo como a um só homem, então as nações, que antes ouviram a tua fama, falarão, dizendo:
Porquanto o Senhor não podia pôr este povo na terra que lhe tinha jurado; por isso os matou no deserto.
Agora, pois, rogo-te que a força do meu Senhor se engrandeça; como tens falado, dizendo:
O Senhor é longânimo, e grande em misericórdia, que perdoa a iniqüidade e a transgressão, que o culpado não tem por inocente, e visita a iniqüidade dos pais sobre os filhos até a terceira e quarta geração.
Perdoa, pois, a iniqüidade deste povo, segundo a grandeza da tua misericórdia; e como também perdoaste a este povo desde a terra do Egito até aqui.
E disse o Senhor: Conforme à tua palavra lhe perdoei.
Porém, tão certamente como eu vivo, e como a glória do Senhor encherá toda a terra,
E que todos os homens que viram a minha glória e os meus sinais, que fiz no Egito e no deserto, e me tentaram estas dez vezes, e não obedeceram à minha voz,
Não verão a terra de que a seus pais jurei, e nenhum daqueles que me provocaram a verá.
Porém o meu servo Calebe, porquanto nele houve outro espírito, e perseverou em seguir-me, eu o levarei à terra em que entrou, e a sua descendência a possuirá em herança.
Ora, os amalequitas e os cananeus habitam no vale; tornai-vos amanhã e caminhai para o deserto pelo caminho do Mar Vermelho.
Depois falou o Senhor a Moisés e a Arão dizendo:
Até quando sofrerei esta má congregação, que murmura contra mim? Tenho ouvido as murmurações dos filhos de Israel, com que murmuram contra mim.
Dize-lhes: Vivo eu, diz o Senhor, que, como falastes aos meus ouvidos, assim farei a vós outros.
Neste deserto cairão os vossos cadáveres, como também todos os que de vós foram contados segundo toda a vossa conta, de vinte anos para cima, os que dentre vós contra mim murmurastes;
Não entrareis na terra, pela qual levantei a minha mão que vos faria habitar nela, salvo Calebe, filho de Jefoné, e Josué, filho de Num.
Mas os vossos filhos, de que dizeis: Por presa serão, porei nela; e eles conhecerão a terra que vós desprezastes.
Porém, quanto a vós, os vossos cadáveres cairão neste deserto.
E vossos filhos pastorearão neste deserto quarenta anos, e levarão sobre si as vossas infidelidades, até que os vossos cadáveres se consumam neste deserto.
Segundo o número dos dias em que espiastes esta terra, quarenta dias, cada dia representando um ano, levareis sobre vós as vossas iniqüidades quarenta anos, e conhecereis o meu afastamento.
Eu, o Senhor, falei; assim farei a toda esta má congregação, que se levantou contra mim; neste deserto se consumirão, e aí falecerão.
E os homens que Moisés mandara a espiar a terra, e que, voltando, fizeram murmurar toda a congregação contra ele, infamando a terra,
Aqueles mesmos homens que infamaram a terra, morreram de praga perante o Senhor.
Mas Josué, filho de Num, e Calebe, filho de Jefoné, que eram dos homens que foram espiar a terra, ficaram com vida.
E falou Moisés estas palavras a todos os filhos de Israel; então o povo se contristou muito.
E levantaram-se pela manhã de madrugada, e subiram ao cume do monte, dizendo: Eis-nos aqui, e subiremos ao lugar que o Senhor tem falado; porquanto havemos pecado.
Mas Moisés disse: Por que transgredis o mandado do Senhor? Pois isso não prosperará.
Não subais, pois o Senhor não estará no meio de vós, para que não sejais feridos diante dos vossos inimigos.
Porque os amalequitas e os cananeus estão ali diante da vossa face, e caireis à espada; pois, porquanto vos desviastes do Senhor, o Senhor não estará convosco.
Contudo, temerariamente, tentaram subir ao cume do monte; mas a arca da aliança do Senhor e Moisés não se apartaram do meio do arraial.
Então desceram os amalequitas e os cananeus, que habitavam na montanha, e os feriram, derrotando-os até Hormá (Nm 14.1-45).

A hora havia chegado para que o povo de Israel tomasse a sua grande decisão. Por causa da sua falta de fé em Deus, eles tinham enviado seus líderes para examinar a terra da promessa, e dez deles declararam, ao voltar, que o povo da terra era poderoso demais para que a terra pudesse ser conquistada. Mas um destes líderes, Calebe, corajosamente conclamou o povo a avançar, porque certamente prevaleceria contra a terra.
O povo deu atenção à maioria descrente, e, deixando-se levar pela emoção do desapontamento, esqueceram-se de tudo o que haviam aprendido sobre o caráter de Deus. Concluiu que não podia entrar, e se voltou contra Moisés e Arão. Exclamavam que iriam morrer à espada, e que suas mulheres e suas crianças seriam escravizadas. Queriam voltar ao Egito, declarando que nunca deviam ter saído de lá. Não pensaram nas dificuldades que teriam de enfrentar para voltar, principalmente se Deus os abandonasse sem alimento ou água: seria preferível entrar em Canaã.
Seu comportamento foi causado pela falta de confiança no que Deus podia fazer, e suas queixas eram realmente contra Deus, pois Moisés e Arão eram apenas Seus agentes para tirar o povo do Egito e levá-lo até Canaã. Com grandes sinais, Deus havia conduzido o povo para fora da escravidão, através do deserto inóspito, até a fronteira da terra prometida. Ele havia fornecido proteção, alimento e cumprido suas promessas. Mas o povo recusou tomar o último passo de fé e entrar na terra, pois estavam com medo.
Às vezes fazemos o mesmo: confiamos em Deus nos casos menos importantes, mas duvidamos da sua habilidade em resolver as situações mais difíceis, que nos dão medo, os grandes problemas, as grandes decisões. Devemos continuar a confiar nEle, lembrando-nos do que já fez em nossa vida. Quando nos vemos como gafanhotos entre gigantes, é que precisamos de Deus.
Moisés e Arão então prostraram-se diante da congregação, em atitude de profundo desapontamento e desespero, e Moisés lhes disse que não se espantassem, nem temessem, pois o SENHOR seu Deus que ia adiante deles pelejaria por eles, amparando-os como havia feito desde o Egito (Dt 1:29-31).
Calebe e Josué haviam visto as mesmas coisas que os outros, na expedição de reconhecimento da terra. Mas, ao contrário do outros, eles incluíram o SENHOR na sua recomendação sobre o que se havia de fazer.
Esta multidão certamente precisava de Deus, e Calebe e Josué, rasgando as suas próprias vestes em sinal de profunda tristeza, insistiram com o povo que, se o SENHOR se agradasse dele, Ele lhe daria a terra, que era realmente muito boa; somente lhe competia não ser rebelde, nem temer o povo da terra.
Mas o povo rejeitou os seus apelos, e até mesmo falou em apedrejá-los. Não devemos precipitadamente rejeitar conselhos e apelos de que não gostamos, que nos são feitos por homens de Deus. É mais prudente refletir sobre eles com cuidado, verificando-os à luz da Palavra de Deus. O aviso poderá ter vindo de Deus.
Na altura desta crise, a Glória do SENHOR (a coluna de nuvem) apareceu na Tenda da Congregação: Ele estava profundamente irado contra o povo, por causa da sua rebeldia e incredulidade. Ele propôs a Moisés matar o povo todo com uma pestilência, e começar de novo com a descendência de Moisés, que herdaria as promessas feitas aos patriarcas.
Sem dúvida Ele estava pondo Moisés à prova, e Moisés se saiu muito bem: ele não queria isto para si, embora lhe fosse vantajoso.
Os povos da terra sabiam como o SENHOR havia tirado o povo do Egito com mão forte, mas perderiam seu respeito se o povo, de quem Ele cuidava, fosse morto no deserto, pois iam concluir que Ele não era suficientemente poderoso para fazê-los entrar na terra. Lembrando ao SENHOR novamente alguns dos seus atributos (Êx 34:6,7), Moisés pede Sua misericórdia para com aquele povo, que instantes atrás quis apedrejá-lo. Como aquele povo, também contamos com o amor, paciência, perdão e misericórdia de Deus.
O povo de Israel tinha um conhecimento melhor de Deus do que qualquer povo antes dele, pois tinha tanto Sua lei, como Sua presença física. Sua recusa em avançar após Ele, depois de testemunhar Seus sinais sobrenaturais e ouvir Suas palavras, tornou o julgamento mais severo. Maior oportunidade trás maior responsabilidade, como o Senhor Jesus disse "àquele a quem muito se confia, muito mais lhe pedirão" (Lc 12:48). Quanto mais a nossa responsabilidade, para obedecer e servir a Deus - pois temos toda a sua revelação, na Bíblia, e conhecemos o seu Filho, Jesus Cristo.
Este acontecimento tem um outro significado especial para nós: o povo teve fé suficiente para espargir o sangue do cordeiro nas portas de suas casas (expiação) e de sair do Egito (mundo), mas não tinha fé para entrar na terra de Canaã. Portanto, embora redimidos, deram quarenta anos de mágoa ao SENHOR. É como o caso do que faz profissão de fé, aprende de Cristo sendo assim iluminado por Ele, prova a vida na igreja e participa do ensino do Espírito Santo, mas que, por não ter na realidade a fé salvadora em si, eventualmente volta atrás (Hb 6:4-6), passando para um estado pior do que antes.
O povo já tinha posto Deus à prova dez vezes: (1) à margem do Mar Vermelho (Êx 14:11, 12); (2) em Mara (Êx 15:24); (3) no Deserto de Sim (Êx 16:3); (4) colhendo mais maná do que devia (Êxodo 16:20); (5) colhendo maná no sábado (Êx 16:27-29); (6) em Refidim (Êx 17:2, 3); (7) no monte Sinai (Êx 32:7-10); (8) em Taberá (Nm 11:1, 2); (9) outra vez em Taberá (Nm 11:4); (10) agora em Cades-Barnéia (Nm 14:1-4).
O SENHOR perdoou o povo. Eles se salvaram da pestilência, mas os incrédulos não teriam o privilégio sequer de ver a terra prometida. Ele declarou também que, tão seguramente como Ele vive, toda a terra se encherá da Sua glória: Seu programa para a terra continua, e um dia vai ser completado, quando Cristo instalará aqui o Seu reino.
A punição foi proporcional ao crime: os dez espias, que fizeram o povo murmurar contra Moisés, morreram de praga perante o SENHOR; o povo foi condenado a vagar pelo deserto por quarenta anos, o número de dias que os espias percorreram Canaã; os que pecaram, os de vinte anos para cima, morreram no deserto (pois era isso que temiam em sua incredulidade), impedidos de entrar na terra prometida (Hb 3:17-19). Mas Calebe e Josué, que mostraram a sua fé, bem como os filhos do povo, que pensavam seriam escravizados, iriam entrar na terra.
Ao ouvir a sentença, o povo se entristeceu muito; aqueles homens declararam que haviam pecado, e que agora estavam dispostos a subir o monte em direção à terra prometida, embora tendo perdido a oportunidade de ir com Deus. Isto não era fé, mas presunção. Não existe vitória se não houver submissão à vontade de Deus. Falhar em nossa fé muitas vezes traz mais problemas do que os que tínhamos antes; quando fugimos de Deus, inevitavelmente incorremos em problemas. Deus quer obediência imediata e completa. Às vezes as boas intenções e as ações certas chegam tarde demais.
Moisés procurou demovê-los, prevenindo que não teriam sucesso, pois eles haviam se desviado do SENHOR, e Ele não seria com eles. Mas eles não lhe deram ouvidos, seguiram monte acima, os amalequitas desceram sobre eles e os derrotaram monte abaixo.



III. O sofrimento de Elias com a Nação de Israel.





1. A Situação da Apostasia de Israel

A história do declínio de Israel começa com Salomão. Ainda que seu pai, Davi, tivesse tentado servir ao Senhor e tivesse humildemente arrependido quando pecou, Salomão não permaneceu fiel. Apesar de todas as bênçãos que Deus lhe deu, ele seguiu suas centenas de esposas para longe do Senhor e para a idolatria. Quando Salomão morreu, Deus retirou dele a maior parte do reino e a deu a Jeroboão. Esta nova nação, que consistia das dez tribos do norte, foi chamada Israel. Deus disse a Jeroboão que o abençoaria e estabeleceria a sua como a família real, por muitas gerações, se ele fosse fiel e obediente ao Senhor.
Mas Jeroboão não confiou em Deus. Ele não se voltou para o Senhor, mas se afastou dele. Estava tão preocupado com sua posição de poder em Israel que não queria permitir ao povo voltar a Jerusalém para suas festas religiosas anuais. Temia que o povo se decidisse a servir o filho de Salomão e não mais quisesse Jeroboão como rei.
Para impedir o povo de sair de Israel, Jeroboão inventou um novo sistema religioso. Ele tomou emprestadas muitas idéias da religião verdadeira que Deus tinha estabelecido no Monte Sinai. Com seus bezerros de ouro, centros de adoração não autorizados e sacerdotes não levíticos, Jeroboão deu um grande passo afastando-se de Deus.

2. Elias padeceu por causa do seu povo



Elias não aguentava mais: “Basta; toma agora, ó Senhor, a minha alma, pois não sou melhor do que meus pais” (v. 4). Como pôde a notável vitória do Monte Carmelo (cap. 18) dar lugar, tão rapidamente, a um estado de espírito tão negativo?
A luta entre o bem e o mal, entre Deus e Satanás, é uma realidade sempre presente na experiência cristã. Quantas vezes assistimos a crescimentos notáveis no trabalho do Senhor, fruto abundante, almas salvas e, repentinamente, sem se saber bem porquê, tudo desaba! As forças do mal sempre resistirão ao progresso do povo de Deus. Leia os capítulos 9 e 10 do livro de Daniel! O apóstolo Paulo também identifica, de forma clara, a ação deletéria de Satanás no seu ministério (1 Ts 2:18).
Ataque à liderança. Elias era a mais poderosa voz em prol de um reavivamento e o regresso ao culto do Deus Verdadeiro em Israel. Corajosamente, enfrentou sozinho e venceu os 850 falsos profetas de Baal e do poste-ídolo (18:19), provocando a ira vingativa de Jezabel: “Façam-me os deuses como lhes aprouver se amanhã a estas horas não fizer eu à tua vida como fizeste a cada um deles” (19:2).
Jezabel não visava apenas a vida de Elias. Ela pretendia, acima de tudo, decapitar o movimento de restauração espiritual iniciado no Monte Carmelo, silenciando o seu líder! No vers. 3, vemos como Elias sentiu a pressão da ameaça e fugiu para salvar a vida!
Observando como o profeta cedeu ao medo, precisamos de ter consciência de que um líder cristão não é infalível. Tal como Elias, pode fraquejar: “Elias era um homem semelhante a nós, sujeito aos mesmos sentimentos…” (Tg 5:17). Como necessitam da nossa compreensão, do nosso apoio e das nossas orações os pastores das igrejas e outros líderes do trabalho de Deus! Do que não precisam, de certeza, é de crítica maldosa e de maledicência…
Expectativas falhadas. Porque reagiu Jezabel de forma tão violenta aos acontecimentos do Monte Carmelo? O certo é que ela representava os interesses ligados à adoração de Baal em Israel (16:29-32). E mesmo com os falsos profetas mortos e a sua religião exposta ao ridículo, ela, Jezabel, mantinha intacto todo o seu poder! Ninguém se atrevia a enfrentá-la…
Possivelmente, Elias estaria perguntando a si mesmo: “Onde está todo o povo que, no Carmelo, reconheceu que só “o Senhor é Deus”? Para onde foram os executores dos profetas de Baal (18:39-40)? Talvez Elias esperasse que a vitória do Monte Carmelo desencadeasse, imediatamente, o reavivamento pelo qual lutava. Mas isso, de facto, não aconteceu…
Sucede também conosco, angustiarmo-nos e perdermos a esperança quando a solução dos nossos problemas demora um pouco mais… Lembremo-nos de que o nosso tempo não é, necessariamente, o tempo de Deus! Confiemos Nele e saibamos esperar o momento certo da operação da Sua mão poderosa (2 Co12.7-10; Rm 8:28).

3. Elias chegou a ponto de ficar em desespero.
Precisamos de estar atentos aos sinais denunciadores de queda iminente em estado de depressão, de desespero. Elias tinha alguns destes sinais:
Medo. A ameaça de Jezabel atemorizou o profeta, levando-o a fugir do perigo (19:2-3). Sem dúvida, qualquer ameaça de morte deve ser levada a sério e obriga à tomada de precauções; mas não podemos permitir que o medo nos domine e controle (1 Jo 4:18; Rm 8:15). “…maior é aquele que está em vós do que aquele que está no mundo” (1 João 4:4).
Cedência, rendição. Elias caminhou até Berseba, onde “deixou o seu moço” , o seu criado (19:3). Com este gesto, mostrava que desistia de tudo: do seu ministério profético, da luta contra a idolatria, da própria vida (19:4)! É como se dissesse: “Basta! Já fiz tudo o que podia! Não faço mais nada! Quero morrer!”
Recordemos a exortação e a promessa da Palavra de Deus: “E não nos cansemos de fazer o bem, porque a seu tempo ceifaremos, se não desfalecermos” (Gál. 6:9).
Isolamento. Elias isolou-se, procurou ficar sozinho. Internou-se no deserto, “caminho de um dia”, e só parou num local onde presumiu que não seria encontrado (19:4). Depois de alimentado pelo anjo do Senhor, voltou à sua caminhada solitária (mais quarenta dias inteiros) até ao Monte Horebe, que é o Monte Sinai (19:5-8).
Se alguém se auto-isola, deve ser observado com cuidado: pode estar à beira de uma depressão!
Pensamentos mórbidos, negativos, estão ligados, quase sempre, a uma crise de auto-estima! Era esse o estado de Elias quando fez uma oração que o Senhor não iria atender (19:4)!
Cuidado com o que ocupa a nossa mente! Pensamentos negativos são uma ameaça para a saúde física e espiritual! Em Filip. 4:8, o apóstolo Paulo diz-nos o que devemos ter no pensamento: tudo o que é verdadeiro, respeitável, justo, puro, digno de ser amado, agradável de se ouvir (de boa reputação), tudo o que é digno de louvor!
Exaustão. Desde o Monte Carmelo, passando por Jezreel e Berseba, Elias deve ter caminhado mais de 250 quilómetros! Estava física e emocionalmente esgotado, e ainda lhe faltava andar outro tanto para chegar ao Monte Horebe, destino que a si mesmo tinha imposto!
O cansaço é mau conselheiro! Temos a responsabilidade de preservar o nosso corpo nas melhores condições para o serviço do Senhor!
Desobediência. Notemos a pergunta de Deus a Elias quando ele, finalmente chegou a Horebe: “Que fazes aqui, Elias?” (19:9). O Senhor tinha-o enviado para junto do ribeiro de Querite (17:3), para Sarepta (17:9), para Samaria (18.1-2) e para Jezreel (18:46), mas não para Berseba, para o deserto, nem para Horebe! Afinal, Elias tinha cometido o pecado tão comum em nós mesmos: o da desobediência!

4. Elias teve o seu ânimo restaurado!

Apesar de não o ter enviado, o Senhor permitiu que Elias alcançasse o lugar onde estavam as raízes espirituais de Israel: o Monte Sinai! Quando o Seu servo mais precisou, Ele estava lá para o amparar e restaurar!
Deus intervém! No momento em que o ânimo de Elias bateu no fundo, o Senhor o socorreu através do Seu anjo (19:5-7). Uma das mais valiosas promessas da Escritura, é a da assistência dos anjos de Deus a nosso favor (Hb 1:13-14; Dn 3.24-28; Mt 4.11). Depois, foi o próprio Deus quem confortou e orientou Elias (19:9-18). Ele não se manifesta sempre da mesma maneira (compare 1 Rs 19.11-13 com Ex 19.16-19), mas o Trono da Graça está pronto para socorrer os Seus “em ocasião oportuna” (Hb 4:16).
Recuperação física. Quando Elias estava exausto e faminto, Deus lhe providenciou descanso e alimento (19:4-8), sem os quais não estaria em condições de ouvir “a palavra do Senhor” (19.9). O repouso é muito importante!
Há crentes que não vão à igreja, com a desculpa de que não conseguem tirar proveito da Escola Dominical e do Culto, porque os acham cansativos, sempre a mesma coisa, enfim… uma maçada! Seria interessante perguntar-lhes o que andam a fazer durante a semana e particularmente na noite de sábado, para não estarem em condições de adorar o Senhor juntamente com os seus irmãos na fé! Somos fiéis na mordomia do nosso tempo e do nosso corpo?
Confirmação do ministério profético. Depois de um ministério passado tão rico, Elias estava como que desligado, inoperante… Precisava de renovação e de um novo impulso, porque a sua missão ainda não terminara! Pela mão de Deus, ele voltou em pleno, ungindo os novos reis da Síria e de Israel, e o seu sucessor Eliseu (19:15-21). É bom podermos dizer, como Paulo, “combati o bom combate”, mas não que “completei a carreira” antes do tempo determinado pelo Senhor!

5. Elias Desafia o Povo Vacilante de Israel

Numa impressionante demonstração de coragem e fé, Elias desafiou 850 falsos profetas, que eram sustentados pela esposa do rei, a enfrentá-lo no Monte Carmelo. Eles aceitaram o desafio, e o povo de Israel foi testemunhar a grande disputa. Este era o mesmo povo que Elias procurava converter. Ele queria mostrar-lhes a grande diferença entre o Deus verdadeiro e os falsos deuses que o rei deles adorava. "Então, Elias se chegou a todo o povo e disse: "Até quando coxeareis entre dois pensamentos? Se o Senhor é Deus, segui-o; se é Baal, segui-o" (1 Rs 18:21).
Os israelitas, tão acostumados a seguir cegamente seus chefes religiosos, não responderam. Seus sentimentos estavam tão embotados por gerações de tradições pecaminosas que eram praticamente incapazes de distinguir o certo do errado.
Deus mostrou ao povo a diferença. Elias e os profetas de Baal prepararam dois sacrifícios. Construíram altares, puseram lenha neles e prepararam seus sacrifícios de novilhos. Elias convidou os profetas de Baal a serem os primeiros a oferecer seus sacrifícios, exceto que eles não acenderiam o fogo. Eles deveriam orar ao seu deus para que mandasse fogo para consumir o sacrifício. Elias sabia que Deus podia fazer isto, porque já tinha consumido outros sacrifícios em gerações anteriores. Mas, e Baal? Poderia produzir fogo? Seus profetas oraram, dançaram, e até se feriram para obter sua atenção, mas Baal não respondeu. Elias escarneceu-os, sugerindo que deveriam gritar mais alto para acordar seu deus. Eles berraram com mais força, mas o impotente Baal nada fez.
Elias preparou seu sacrifício. Para ter certeza de que ninguém pudesse reclamar que ele tivesse usado de alguma trapaça, ele pediu que fosse trazida água para molhar totalmente o sacrifício, a madeira e o altar. Eles trouxeram tanta água que o rego que ele tinha escavado em volta do altar encheu-se. Somente a ação de Deus poderia incendiar este sacrifício! E foi exatamente isto que aconteceu. Elias orou: "Responde-me, Senhor, responde-me, para que este povo saiba que tu, Senhor, és Deus e que a ti fizeste retroceder o coração deles" (1 Rs 18:37).
Deus não deixou dúvida. "Então, caiu fogo do Senhor, e consumiu o holocausto, e a lenha, e as pedras, e a terra, e ainda lambeu a água que estava no rego. O que vendo todo o povo, caiu de rosto em terra e disse: O Senhor é Deus! O Senhor é Deus!" (1 Re 18:38-39). Os falsos profetas que tinham enganado o povo foram mortos.

IV. Jesus ouviu palavras de encorajamento de Moisés e Elias acerca do seu calvário.

3. Moisés e Elias, os representantes ilustres, segundo o pensamento judeu, da Lei e dos Profetas, apareceram falando com ele sobre os próximos acontecimentos em Jerusalém (Lc. 9:31). Essa conversação mostrou aos discípulos que a morte do Messias não era incompatível com o V.T. Considerando a transfiguração como uma pré-estreia do reino messiânico (16:28), alguns têm visto em Moisés (que já morrera) e Elias (que passara desta vida para a outra sem experimentar a morte) os representantes dos dois grupos que Cristo trará com ele para estabelecer o seu reino: santos mortos ressuscitados e santos vivos transladados. Do mesmo modo os três discípulos são considerados representantes dos homens vivos na terra por ocasião do Segundo Advento

Quando veio à Terra, Jesus Cristo deixou de lado sua glória (Jo 17:5). Por causa de sua obra consumada na cruz, recebeu de volta sua glória, que hoje compartilha conosco (Jo17: 22,24). No entanto, não precisamos esperar pelo céu para participar dessa "glória da transfiguração". Quando nos entregamos a Deus, ele "transfigura" nossa mente (Rm 12:1, 2). Ao nos sujeitarmos ao Espírito de Deus, ele nos transforma (transfigura) "de glória em glória" (2 Co 3: 18). Ao examinarmos a Palavra de Deus, vemos o Filho de Deus e somos transfigurados pelo Espírito de Deus na glória de Deus.

A glória de seu reino. No encerramento de seu sermão sobre tomar a cruz, Jesus prometeu que alguns de seus discípulos veriam "o Filho do Homem no seu reino" (Mt 16:28). Selecionou Pedro, Tiago e João para testemunhar esse acontecimento. Esses três amigos e sócios (Lc 5:10) haviam acompanhado Jesus à casa de Jairo (Lc 8:51) e, posteriormente, estariam com ele no jardim do Getsêmani, antes da crucificação ( Mt 26:37).

Nessas três ocasiões, o assunto principal foi a morte. Jesus estava ensinando a estes três homens que ele é vitorioso sobre a morte (ressuscitou a filha de Jairo) e se entregou à morte (no jardim). A transfiguração ensinou que ele foi glorificado na morte. A presença de Moisés e de Elias foi significativa, pois Moisés representava a lei e Elias os Profetas. Toda a lei e os Profetas apontam para Cristo e se cumprem em Cristo (Lc 24:27; Hb 1:1). Nenhuma palavra do Antigo Testamento deixará de ser cumprida. O reino prometido será estabelecido (lc 1:32, 33, 68-77). Assim como esses três discípulos viram Jesus glorificado na Terra, também o povo de Deus o veria em seu reino glorioso na Terra (Ap 19:11 - 20:6). Pedro aprendeu essa lição e nunca mais a esqueceu. "Nós mesmos fomos testemunhas oculares da sua majestade [...] Temos, assim, tanto mais confirmada a palavra profética" ( 2 Pe 1:12ss). A experiência de Pedro no monte apenas fortaleceu sua fé nas profecias do Antigo Testamento. O mais importante não é testemunhar grandes feitos e prodígios, mas ouvir a Palavra de Deus. "Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo; a ele ouvi" (Mt 17:5). Todos os que são nascidos de novo pertencem ao reino de Deus 00 3:3-5). Trata-se de um reino espiritual, separado das coisas materiais deste mundo (Rm 14:17). Mas um dia, quando Jesus voltar, haverá um reino glorioso por mil anos (Ap 20: 1-7), com Jesus Cristo governando como Rei. Os que crerem nele reinarão com ele na Terra (Ap 5:10).

A glória de sua cruz. Os discípulos precisavam aprender que o sofrimento e a glória andam juntos. Pedro não queria que Jesus fosse a Jerusalém para morrer, de modo que Jesus teve de ensinar-lhe que, sem seu sofrimento e morte, não haveria glória. Sem dúvida, Pedro aprendeu a lição, pois em sua primeira epístola enfatiza repetidamente o sofrimento e a glória (1 Pe 1:6-8,11; 4:12 5: 11 ). Moisés e Elias conversaram com Jesus Seu sofrimento e morte não seriam um acidente, mas uma conquista. Pedro usa a palavra partida ao descrever sua morte iminente (2 Pe 1:15). Para o cristão, a morte não é uma estrada de mão única para o esquecimento. Antes, é uma partida, um êxodo, a libertação da escravidão desta vida para a gloriosa liberdade da vida no céu. Pelo fato de Cristo ter morrido e pago o preço, pudemos ser redimidos: comprados e libertados. Os dois discípulos de Emaús esperavam que Jesus libertasse a nação da escravidão romana (Lc 24:21). Jesus não morreu para oferecer liberdade política, mas sim para conceder liberdade espiritual: fomos libertos do sistema do mundo (Gil :4), de uma vida fútil e sem propósito (1 Pe 1:18) e da iniquidade (Tt 2:14). Nossa redenção em Cristo é decisiva e definitiva.

A glória de sua submissão. Pedro não conseguia entender por que o Filho de Deus se sujeitaria a homens perversos e sofreria voluntariamente. Deus usou a transfiguração para ensinar a Pedro que Jesus é glorificado quando negamos a nós mesmos, tomamos nossa cruz e o seguimos. A filosofia do mundo é: "salve sua vida!", mas a filosofia cristã é: "entregue sua vida a Deus!" Ao se colocar diante deles em glória, Jesus provou aos três discípulos que a entrega sempre conduz à glória. Primeiro o sofrimento, depois a glória; primeiro a cruz, depois a coroa. Cada um dos três discípulos viveria essa importante verdade. Tiago seria o primeiro dos discípulos a morrer (At 12:1, 2). João seria o último, mas enfrentaria perseguições intensas na ilha de Patmos (Ap 1:9). Pedro passaria por muitas aflições e, no final, daria sua vida por Cristo 00 21 :15-19; 2 Pe 1:12). Pedro opôs-se à cruz quando Jesus mencionou sua morte pela primeira vez (Mt 16:22ss). No jardim, usou sua espada para defender o Mestre 00 18:10). Até mesmo no monte da transfiguração, Pedro tentou dizer a Jesus o que fazer, pois queria construir ali três tendas, uma para Jesus, outra para Moisés e outra para Elias, para que todos permanecessem ali e desfrutassem a glória! Mas o Pai interrompeu a Pedro e deu permite que seu Filho amado seja colocado no mesmo nível que Moisés e Elias. A ninguém [...] senão Jesus", esse é o padrão de Deus (Mt 17:8). Enquanto descia o monte com seus três discípulos, Jesus advertiu-os a não revelar o que haviam visto, nem mesmo aos outros discípulos. Mas os três homens ainda estavam perplexos. Haviam aprendido que Elias viria primeiro em preparação para a fundação do reino. A presença de Elias no monte seria o cumprimento dessa profecia? (MI 4:5, 6).

Jesus responde a essa pergunta de duas maneiras. Sim, Elias viria conforme profetizado em Malaquias 4:5, 6, mas, em termos espirituais, Elias já havia vindo na pessoa de João Batista ( Mt 11:10-15; Lc 1:17). A nação permitiu que João fosse executado e pediria que Jesus fosse morto. Apesar de tudo o que os líderes perversos fariam, Deus realizaria seu plano. Quando se dará a vinda de Elias para restaurar todas as coisas? Alguns acreditam que Elias virá como uma das "duas testemunhas", cujo ministério é descrito em Apocalipse 11. Outros acreditam que a profecia foi cumprida no ministério de João Batista e, dessa forma, Elias não virá outra vez.

Portanto, assim como Moisés e Elias, Jesus haveria de padecer bastante como fruto da incredulidade do povo Judeu.

Neste caso, Deus enviou estes personagens ilustres visando consolar e preparar ao Senhor Jesus acerca do sofrimento pelo qual haveria de passar.



V. As lições da transfiguração de Jesus.


Ha diversas lições e observações justas sobre a aparição desses dois homens. Moises e Elias,


  • MOISES representa, como nenhum outro, a autoridade da lei, e geralmente serve de símbolo do judaísmo em geral. Diversas tradições associavam Moises a vinda do Messias. Jesus, em sua vida e ministério, era qual outro Moises, posto que deu uma nova lei. organizou uma nova congregação e estabeleceu uma nova ordem de coisas. Moises, no pensamento judaico, estava associado a gloria do reino de Deus.
  • Elias representa os profetas, por ter sido um dos maiores profetas. Jesus recebeu, portanto, o testemunho dos profetas, porque, realmente, todos eles profetizaram a seu respeito. Porem, tal como no caso de Moises. Jesus recebeu o testemunho direto de Elias, o que serviu de confirmação da sua missão como o Messias de Israel. O profeta Elias também era associado a esperança messiânica, e muitos esperavam a sua visita pessoal antes da manifestação do Messias. O vs 10 deste mesmo capitulo ilustra essa ideia. Aqui. pois, Elias talvez tenha aparecido como cumprimento parcial da profecia, ou, pelo menos. como demonstração da ligação de sua pessoa com 0 Messias.
  • JUNTOS. Moises c Elias mostraram a aprovação do Pai a pessoa e a missão de Jesus; e também demonstraram que Jesus cara o Messias de Israel, que se baseava na religião e esperança messiânica dos judeus, não sendo ele o fundador de uma religião inteiramente separada da fé de Israel. O aparecimento de Moises e Elias testificou que suas obras se completavam em Cristo.
  • Ha diversas outras interpretações: Elias representa os redimidos arrebatados (da igreja), porquanto não passou pela morte. Moises representa os redimidos que experimentam a morte física. E difícil afirmar o simbolismo dessas figuras, mas os fatos mencionados nas posições um e três. Certamente, a visão antecipa a parousia e a gloria do reino eterno.
  • A passagem de Lc 9:31. que apresenta a ideia geral da conversa havida, ilustra o fato indicando que a aparição daquelas personagens tinham o proposito de consolar e orientar a Jesus, porquanto prestes enfrentaria a morte, e o fracasso de sua tentativa de estabelecer o reino literal era. ao mesmo tempo, sua grande oportunidade de fazer expiação pelos pecados do mundo inteiro. Jesus enfrentava a hora critica de seu ministério, e nessa hora a associação com Moises c Elias ajudou-o a cumprir com êxito essa fase de sua missão.
  • A palavra aqui traduzida por partida (Lc 9:31) e, literalmente, êxodo,e fala não só de sua morte, mas também de sua ascensão aos céus, e. realmente, de sua partida da terra, do fim de sua missão na terra. O mesmo vocábulo e usado com referencia a morte de Pedro ( Pe 1.15). Moises foi 0 líder do grande êxodo do povo de Deus, quando da saída do Egito. Jesus, mediante o seu êxodo, estabeleceria o alicerce da esperança para todo o povo de Deus sair deste mundo a fim de ir habitar no mundo além (Hb 3:18 e 4:8.
  • Alguns interpretes sugerem a identificação de Moises e Elias com as duas testemunhas do Apo. Ver a discussão sobre esse assunto em Ap 11:3-12.
  • Estando ele ainda a falar, eis que uma nuvem luminosa os cobriu; e dela saiu uma voz que dizia: Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo; a ele ouvi.
  • «Falava ele ainda...·. Se outro acontecimento não tivesse interrompido a Pedro, certamente teria continuado a falar, como era de seu costume. Esta visão tem quatro elementos principais: 1. A transfiguração da aparência e de toda a pessoa de Jesus (vs. 2). 2. A aparição de Moises c Elias (vs. 3) A aparição da nuvem, que provavelmente não era uma nuvem física ou comum, mas uma manifestação de luz extraordinária, pois o texto diz nuvem luminosa. Essa nuvem os envolveu como se fora um nevoeiro.
  • Provavelmente o texto fala de um tipo de energia celestial. Sabemos que, nas experiências místicas, a presença dos fenômenos altera a atmosfera mental, c aqueles que não estão espiritualmente preparados para tais manifestações, são assaltados pelo medo. Para os mortais, sob condições comuns, habitar na atmosfera divina e experiência temível. Não temos muito conhecimento sobre tais manifestações, mas sabemos que elas acompanham as experiências místicas e podem produzir profunda alegria, êxtase, ou resultados opostos, como medo profundo. 4. A voz vinda dos céus.
  • Essa nuvem luminosa c celestial era justamente o sinal dos céus que os fariseus e saduceus quiseram ver, mas que lhes foi negado, ao passo que os discípulos, embora fracos c sem grande compreensão sobre a missão de Jesus e os seus propósitos, mas que eram honestos de coração e queriam receber o conhecimento da verdade, embora não tivessem solicitado tal sinal, receberam-no livremente da parte de Deus. Esse sinal, como também os demais acompanhamentos da visão, tinham 0 proposito de confirmar a missão messiânica de Jesus ante os apóstolos, ensinando-lhes algo sobre a gloria dele. e. posteriormente, teve o efeito de confirmar a mensagem de cristianismo perante eles.
  • Por diversas vezes houve nuvens relacionadas ao ministério de Jesus: 1. No seu batismo (Mat. 3:17). 2. Mais tarde. na ascensão (Atos 1:9). 3. Quando de seu segundo advento, também ha a promessa de que haverá uma nuvem (Mt 24:30).
  • ESSE tipo de manifestação era sempre associado . presença de Deus, no V.T. Os judeus intitulavam essa manifestação de shechinah, ou gloria, que no Talmude significa praesentia Dei, a presença de Deus. A palavra se deriva da raiz que significa *habitar. Deus deu ao povo de Israel uma nuvem para dirigi-lo no deserto, símbolo da presença de Deus que guia ( Ex. 13:21). Também lemos que, as vezes, essa manifestação enchia a casa do Senhor (I Rs 8:10). Posteriormente, essa manifestação passou a ser geralmente reputada uma prova da presença de Deus, e a própria palavra shechinah passou a ser usada para indicar a presença de Deus. Em Is. 4:5 temos a indicação de que a presença da gloria de Deus separa o mal do bem.
  • A gloria da presença de Deus serviu de símbolo do resplendor da Nova Jerusalém (Ap 21:23). Por meio dessas observações podemos ver a magnitude do sinal dos céus que foi concedido aos apóstolos, e, nessas circunstancias, ate ao próprio Jesus.
  • ...uma voz que dizia...» Os discípulos não precisavam erguer tabernáculos terrestres para abrigar a presença de Moises e Elias. Deus manifestou a sua própria presença sem precisar de qualquer edifício material, e demonstrou que a sua mensagem estava presente entre os homens, na pessoa de seu Filho. O reino literal ainda se demoraria, mas todos os benefícios desse reino poderiam ser usufruídos pelo crente, imediatamente. A voz transmitiu a mesma mensagem ja notada cm Mt. 3:17, quando do batismo de Jesus.
  • Amado·, neste caso, não significa o mais amado (superlativo), nem o único amado, mas amado ״ cm sentido especial, particular. Conforme sucedeu quando do batismo, aqui também temos a confirmação da aprovação divina a missão messiânica de Jesus e a sua pessoa, de maneira geral. Nessa altura de seu ministério. Jesus precisava dessa confirmação, porquanto enfrentava dura oposição da parte das autoridades religiosas, a possibilidade de morrer as suas mãos, e o fracasso no estabelecimento do reino literal a face da terra. Mas—a aprovação divina—veio demonstrar que, a despeito desses fatos que indicavam um aparente fracasso na missão messiânica de Jesus. a sua vida e sua verdadeira missão messiânica, segundo deveriam ser entendidas cm conexão com seu primeiro advento, não tinham falhado cm seus propósitos. Tudo estava correndo de acordo com o plano de Deus. O homem comum não teria percebido isso, nas circunstancias do momento. Por isso os discípulos também precisavam dessa confirmação; e o valor da visão não se perdeu, porque mais tarde lembraram-se desse acontecimento c das lições dai derivadas, e então puderam compreender o quadro inteiro. O cristianismo começou, portanto, com base cm uma fé firme. De certa maneira o cristianismo foi uma extensão do judaísmo; porem, dotado de mensagem própria, de escopo universal, cm que Cristo ocupa o centro.
  • Em diversas outros passagens nota-se a voz dos céus para transmitir algum recado de Deus, como Lc 2:14; Mt. 3:17; Mc 1:11; Lc 3:22; Jo 12:28; 2 Pd 1:17 e Jo 1:33.
  • Os discípulos, ou pelo menos Pedro, quiseram deter a Moises e Elias; mas a grande mensagem de Deus e ouvi o cristo. Temos aqui o cumprimento da profecia de Dt 18:15: O Senhor teu Deus te despertara um profeta do meio de ti. de teus irmãos, semelhante a mim: a ele ouviras.
  • Além dos demais benefícios da visão, que já foram mencionados, e claro que ela teve o efeito de fortalecer a fé dos discípulos na ressurreição, na transformação do povo de Deus. na sobrevivência da alma apos a morte física, na realidade do mundo do espirito, e, de maneira geral, nas realidades da vida espiritual e do mundo vindouro.
  • A aprovação da missão messiânica e cósmica de Jesus: O Pai aprovou a missão de Jesus. A visão demonstrou Isto é antecipou sua parousia e a gloria eterna de Cristo como Rei e Sumo Sacerdote.
  • Um Profeta Asceta. João pode ter vivido ou não sob os votos do nazireado (vide). Seja como for, ele vivia de modo extremamente ascético, vestido, como Elias, com pelos de camelo e comendo gafanhotos e mel silvestre, e falando acerca de acontecimentos apocalípticos e sobre a necessidade dos homens se arrependerem. Tudo, em João Batista, fazia lembrar Elias. e as multidões vinham ouvi-lo. 4. Retirada e Reforma. Embora, a exemplo dos essênios, João Batista se tivesse retirado do convívio social, de forma alguma ele se distanciou da sociedade de seus dias. Sua missão consistia em anunciar as condições, àquela sociedade, mediante as quais os homens de então deveriam acolher o Messias e o seu reino. O Batista engolfou Samaria em seu ministério (João 3:23). Se é que João Batista começou entre os essênios (um ponto muito disputado), então, por certo, ele não se limitou a essa «denominação», visto que a sua mensagem profética era universal, e ele não pregava a uma claque fechada, conforme faziam os essênios.
  • O Messias Anunciado por João Batista. O Novo Testamento deixa claro que João Batista esperava que o Messias estabelecesse o seu reino, pela força, se necessário, e que isso constituiria um acontecimento apocalíptico. De fato, João referia-se a esse advento com termos idênticos àqueles em que os pregadores modernos aludem ao Segundo Advento de Cristo. O Novo Testamento não tenta esconder que o Batista, em certa medida, ficou desapontado diante do modo como Jesus se apresentou publicamente. Jesus não reuniu algum exército, nem se mostrou militante. Ao que parecia, não foi ao menos capaz de proteger o seu homem-chave, ou seja, ao próprio João Batista. Os adversários de Jesus pareciam estar ganhando todas as vitórias. Verdadeiramente, do ângulo de João, as coisas não estavam avançando nada bem. Foi por essa razão que ele enviou mensageiros a Jesus, para que indagassem se ele era, meramente, o Messias, Aquele pelo qual ele, João Batista estava esperando. (Mt 1:2 ss) . João ouvia falar sobre os grandes prodígios de Jesus; mas ali estava ele mesmo, no cárcere. Como poderia ser isso?
Somente quem foi uma testemunha ocular da transfiguração pode falar com tanta autoridade da exaltação do Senhor! Bendito para todo o sempre seja o nome de Jesus!!

Se você meu irmão , minha irmã, está ´passando por dificuldades, e se há barreiras intransponíveis à sua frente, creia que o mesmo Jesus que em tudo foi tentado mas jamais cedeu à tentação, vencendo a todas elas, poderá perfeitamente te socorrer nas suas aflições e angústias.

Que Deus nos abençoe e nos guarde no seu grandioso amor em nome de Jesus, amem